Uma descrição da Vila da Pederneira e seu termo em 1721.

Notícias remetidas à Academia Real
debaixo da Real proteção do muito alto,
e muito poderozo
Rei N. Sñr D. João 5º
-Leiria-[1]
1721
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Acha-se esta vila situada em um alto de um monte defronte do mar a tiro de peça de artilharia. É muito combatida dos ventos por não ter amparo que a defenda e seus edifícios são comuns porque nem os moradores têm posses para maiores fábricas, nem o sítio o pode permitir.
É domínio do Mosteiro de Alcobaça.
Da fundação dela não há certa notícia e, só sim, há tradição que em duas léguas de distância desta vila, para a parte do mar, digo, para a parte do norte, junto ao mar, houve uma vila chamada de Paredes de que ainda hoje se mostram alguns pedaços de edifícios e, pelo que se manifesta, parece que foi de grande povoação pelo dilatado da terra que ocupava e ainda hoje se conserva, neste mesmo lugar, uma Ermida da S.ra  [126v] da Victória em que actualmente [1721] assiste um Ermitão que vendo os moradores da vila das Paredes que nela não podiam viver comodamente se resolveram edificar a vila da Pederneira para onde se mudaram. Porém, não consta do ano, porque podendo constar dos livros, assentos e termos da Câmara que nela estão, mas como as Letras se não podem ler, ainda por aquelas pessoas que costumam ler as mais góticas, se não podem dar as notícias que se desejam. Tem a dita vila 181 vizinhos, pobres de cabedais, e tão limitados que a sua ocupação consiste no exercício marítimo da pescaria em umas ténues lanchas.
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A Câmara da dita vila costuma fazer nove procissões, a saber; a de São Sebastião, Corpo de Deus, Anjo Custódio, Santa Isabel, São Jorge, N.ª S.ra das Neves, As Três Ladainhas de Maio e como os papeis que estão [127] na Câmara se não sabem ler, se não pode dar notícia se são as ditas procissões por voto, se por costume.
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Tem a dita vila uma Igreja Colegiada chamada a S.ra das Areias, com seu Vigário que apresenta o Geral de Alcobaça com 4 Beneficiados e na dita Igreja há 7 Confrarias, a saber; a do Senhor, N. S.ra
do Rosário, Santa Anna, S. António, S. Sebastião, S. Miguel e Frei Pedro Glz, e na dita Igreja não há Capela alguma com bens vinculados, e as missas que se dizem é por conta das Confrarias e devoção dos Irmãos delas.
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Tem a mesma vila sua Casa da Misericórdia com Igreja muito suficiente que novamente se anda reedificando para a qual obra sua Mag.de, que Deus guarde, fez mercê duzentos [127v] mil Reis dos sobejos das cizas, e tem a dita Misericórdia um Hospital onde com caridade se curam os pobres que a ela recorrem e tem três Capelães; um da Casa, outro de uma Capela que instituíram os homens do mar com missa quotidiana e o terceiro serve na Capela que instituiu Joseph Gomes de Goes, da dita vila, com 3 missas cada semana, e estas duas foram instituídas há dez anos a esta parte [1711].
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Nesta Santa Casa há uma Confraria do Espírito Santo com seu Juiz, Escrivão, Procurador, Mordomos e Confrades. Cada ano lhe fazem uma solene festa em que se despende bastante cabedal. Na administração desta Confraria não se mete a Irmandade da dita Casa, pois só é governada e regida pelos Confrades da mesma; A Irmandade da Misericórdia consta de mais de cem [128] Irmãos com seu Procurador e Escrivão e 12 Irmãos da Mesa que a governam por tempo de um ano.
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Tem mais a dita vila para a parte do Sul uma Ermida de S. André e há tradição ser esta Ermida fundada primeiro que a Igreja Matriz, e que dela se administraram os Sacramentos. Tem mais uma outra Ermida de S. Joseph para a parte do Nascente, a qual mandou fundar há 15 anos [1706] o Beneficiado Joseph de Almeida Descansado e nela instituiu uma Capela com 12 missas cada um ano, da qual é administrador Francisco Machado.
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Tem a dita vila Paço do Concelho, casas muito grandes, uma das obras mais principais que há nesta Comarca, bem paramentada do necessário e por baixo delas umas fortes cadeias onde de remetem delinquentes mais façanhosos [128v] desta Comarca e está situada em uma formosa praça que tem a dita vila com uma bem feita torre do relógio com dois sinos que tudo pertence à mesma Câmara.
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Fora da dita vila, a tiro de peça, para a parte do Norte se acha situada uma Ermida de N. S.ra dos Anjos, venerada por todos em comum e particularmente pelos moços solteiros desta vila e termo [o que inclui os da localidade de Famalicão e Casais] e estes são só os Irmãos da dita S.ra, e lhe fazem todos os anos uma solene festa e a tiro de peça, à parte do Nascente, no meio de um campo de areias, está o celebrado Monte chamado de Sião, o qual por sua altura se faz respeitado de todas as vizinhas serras, dominando todos os campos, e pinhais que o cercam. No cume do qual está a antiquíssima Ermida do glorioso Apostolo S. Bartolomeu. Monte em que por tradição há memória dele assistira D. Rodrigo Segundo, último Rei Godo, depois da [129] geral destruição das Espanhas, conquistadas pelo Bárbaro Mauritano em o ano de 700.
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Fora da dita vila, para a parte do Norte, há duas celebradas fontes junto à Ermida da S.ra [dos] Anjos, cujas águas são das melhores, frescas e salutíferas, e pela altura em que estão parecem milagrosas. Uma destas é chamada de a Fonte Nova. Tem quatro perenes bicas cujo curso não tem a menor diminuição, tanto no Verão como no Inverno, e dela se provêm todos os inumeráveis Romeiros que vão à Casa de N. S.ra da Nazaret.[2]
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No termo da dita vila há 4 aldeias, a saber; Nazaret, Famalicão, Casais do Bispo e Serra da Pescaria.
Nazaret, é aquele celebrado Sítio conhecido, e nomeado, em todo o mundo, em que está colocada a gloriosa Virgem de N. S.ra de Nazaret com um templo magnifico [129v] e sumptuoso de que é imediato o muito alto Rei nosso S.or que Deus o guarde. E não se descreve a grandeza do templo e aparecimento desta S.ra, suas maravilhas e milagres, por ser bem sabido e constar das histórias de Sua fuga e como veio ter a este Sítio.
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Consta esta Aldeia de 152 vizinhos, o comum dos moradores são de limitados cabedais e a maior parte deles ou quase todos se ocupam em o exercício de pescadores. E nesta aldeia se alojam todos os romeiros que vêm visitar esta Divina S.ra com muito agasalho e afecto.
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Nesta mesma Aldeia há uma Ermida chamada N. S.ra da Memória. É venerada de todos os Romeiros com muita devoção. Esta se acha edificada sobre o alto de um penhasco, junto ao mar, pela parte do Sul e no fim do mesmo penhasco, para a parte do Poente, se acha fundada [130] a fortaleza de S. Miguel, batida dos mares de uma e outra parte a qual é presidida de gente de Guerra, com disparos de Artilharia, e governada por Luis Ignácio Pereyra, cujo avô Manoel Gomes Pereyra Portuguesde seu próprio cabedal, mandou fabricar a dita Fortaleza para defesa da Pátria.
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Nesta Ribeira se acha fundada uma Casa magnífica a que chamam as Tercenas, onde se recolhem as madeiras que se cortam no Pinhal chamado de El-Rei, e daí se conduzem em barcas para a cidade de Lisboa, para cuja função há Feitor, Escrivão e Meyrinho.
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A segunda Aldeia chamada Famalicão está situada à parte do Sul, légua e meia e consta de 37 vizinhos. Estes vivem de seu trabalho, e tem nesta aldeia a Igreja Paroquial de N. S.ra da Victória, com seu Vigário cuja apresentação é do Geral de Alcobaça. [130v]
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A terceira Aldeia se chama os Casais do Bispo e se compõem de 12 vizinhos, suas habitações são limitadíssimas, vivem de seu trabalho, da Cultura, Lavoura e gados que criam e pertence esta Aldeia à Freguesia de Famalicão.
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A quarta Aldeia é a Serra da Pescaria, consta de 76 vizinhos limitados no trato, vivem do mesmo trabalho que os mais, sem diferença de Aldeia a Aldeia, porque todos são pobres, sua habitação é para a parte do Sul no alto da dita Serra.
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No território desta mesma Aldeia, ao pé da Serra dela, da parte do Poente, se acha uma quinta a que chamam São Gião, de que é possuidor o Marquês de Abrantes. Tem em si uma antiquíssima Ermida do dito Santo que há tradição, teve seu princípio muito poucos anos depois da vinda de Cristo S.or Nosso ao mundo, pois não há dúvida que naquele sítio, e na mesma [131] Ermida se viram pedras com Letreiros escritos muitos séculos antes do tempo em que se destruiu a Espanha e se extinguiu a Monarquia Goda, a esta mesma Aldeia pertence, sete Casais, muito limitados em que habitam 8 vizinhos e vivem com muita limitação para a vida e se observa como podem viver com tanta miséria. Ficam estes Casais no alto da Serra, 2 para a parte do Norte e 5 para a parte do Sul.
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Por baixo desta vila há um Casal que chamam a Barca para a parte do Sul. Este consta de 8 vizinhos e junto ao mesmo correm 3 rios. Um dos quais tem o seu nascimento em Chaqueda [Chiqueda]  termo de Aljubarrota, outro nas marinhas de Alpedriz que com as águas que se juntam de várias fontes se faz mais forte em sua corrente. O terceiro tem seu nascimento em Agoas Bellas [Águas Belas – f. de Valado dos Frades], e todos correm por diverso [131v] e se vêm juntar defronte da dita Vila, distância, pouco mais ou menos, de meia légua para a parte do Sul. E aí, com suavidade, entram no mar fazendo uma grave foz e aprazível à vista.
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Na dita vila não há bens de Morgado, nem Vínculo de que se possa dar informação, nem capelas mais que as referidas, nem outras memórias antigas, nem livros manuscritos, nem letreiros que conduzam à História, e foi o que achei nesta vila de que dou notícia. E eu Christovão de Saá Nogueira, escrivão da Procuradoria, o fiz escrever subscrevi e assnei.
Assinatura (Christovão de Saá Nogueira)
[132]


[1]    ADLRA – Pederneira – Noticias Remetidas à Academia Real debaixo da protecção do muito alto, e poderoso Rei Nº Sñr D. João 5º, 1721, [policopiado]. Alterámos o grafismo e actualizamos o texto, assim como a pontuação, para o Português actual, embora sem cumprir com o A.O. 
A identificação e mudança de fólio encontra-se assinalada, como deve, por [   ].
[2]    O redator não escreve, como se costuma ler para este período e até 1913, “Nazareth” mas, como se nota, “Nazaret”.

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