Sobre a Pedra do Guilhim

A origem do nome “Guilhim” e a associação ao penedo do mesmo nome, não sendo novidade, continua a ser assunto de alguma controvérsia.

As opiniões não parecem ser consensuais, mas todas partem do mesmo princípio; uma doação a um tal cruzado, que terá ajudado D. Afonso Henriques na conquista de Lisboa.

Theophilo Braga, entre outros, menciona o assunto do cruzado, baseando-se nas Memorias avulsas de Santa Cruz de Coimbra, quando nota que «e forom em sua ajuda em esta toma muitas companhas dalemaees e framengos e doutras nações, que veerom per mar, ante os quaes forom hi quatro capitães que aviam nome dom Guilhim de Licorne e dom Rooim e dom Juzhertz, e do Ligel.

Estes quatro demandavam parte da villa a el Rey dom affonso porque foram na tomada della. E el lhe disse que o nom faria, mais lhe daria outros logares que poborassem eles e sua linhagem pera todo o sempre, e que lhe conhecessem d’elles o senhorio. E a hum deles deu a azambuza, e a outro villa verde, e ao outro a lourinhão; e estes dizem que foram de Frandes e trouxeram todos seus linhagens e seus averes, poborarom estes logares.»[1]

Júlio de Castilho, vai um pouco mais longe, dando a conhecer o texto da doação, quando refere que «foi o caso que ao tal Guilhim, ou Guilham (visivelmente Guillaume), doou el-Rei D. Afonso I, como recompensa, o senhorio da Atouguia, em 1158; a doação existe na Tôrre do Tombo; via-a eu pela obsequiosidade do então oficial-maior, José Manuel da Costa Basto. Ei-la traduzida em Português:

Em nome do Padre, do Filho, e do Espirito Santo. Amen.

“É esta carta de doação e perpétua firmidade, que Eu, Afonso, Rei de Portugal, filho do conde Henrique e da rainha D. Teresa, e neto do grande rei Afonso, juntamente com minha mulher, a rainha D. Mafalda, filha do conde Amadeu de Maurienna, concedemos a vós, D. Guilherme de Corni, a herdade de Touguia com seus limites, que partem com Óbidos e Lourinhã.

Damol-a portanto a vós de herança, e aos vossos sucessores que depois de vós vierem, com tudo mais que poderdes grangear, tanto do mar, como da própria terra, para que façais dela tudo que vos aprouver para sempre; e isto fazemos pelo bom serviço e auxilio que nos prestastes, vós e vossos parentes, na tomada de Ulisbona.

Se algum de nossos filhos ou filhas, ou qualquer da nossa geração, quizer quebrar isto que estabelecemos, seja maldito e excomungado, e com Judas traidor de Cristo seja sepultado no inferno.

Feita na era milésima centésima nonagésima sexta (ano cristão de 1158). […][2]

Foi D. Guilhim quem concedeu à Atouguia o seu foral; e por êle se vê que eram francos das Gálias os povoadores.

Conta o Nobiliário chamado do conde D. Pedro, que, falecendo D. Guilhim sem filhos, sucedera no senhorio e na alcaidaria-mór da Atouguia o irmão, D. Jusbertes, em cuja descendência se conservou a posse, constituindo-se assim a família dos Atouguias.[3]

Continua, Júlio de Castilho, «Aventuro-me a sugerir que êste Guilhim proviesse de Quimper, em latim Cornu Gallice; mas creio mais provável que viesse de uma antiga região denominada Le Corny (no Poitou), cujo lugar principal era Vaux-en-Corny. O nome de Licorne é com pequena adulteração o Le Corny francês.

Aproximarei uma circunstância; no jornal LI Illustration, de Paris, 8 de Janeiro de 1881, n.° 1976, Volume lxxvii, vejo uma gravura da cidade de Clermont Ferrand; por cima está o brasão dessa cidade, que parece ser tal qual o dos Atouguias Correias, descendentes de D. Guilhim, e ascendentes dos srs. marqueses de Belas. Será isso Uma indicação quanto à origem dos irmãos?

Vi no focinho do cabo que forma o lado setentrional da baía da Nazaré, um castelo quinhentista, empinado sôbre fragosidades o mais pitorescas e rudes que é possível; e à frente do último barrocal uma ilhota, ou antes penedo isolado, sentinela perdida que, nos dias em que zurra o temporal de sudoeste se vê alagada e insultada com o retouçar das espumas.

Êsse penedo, carcomido dos séculos, uivado das ventanias, enovelado e trabalhado das vagas, tem para os pescadores da Pederneira e da Nazaré o nome ininteligível de pedra de ingulhim (peço mil desculpas ao rochedo se lhe nào acerto com a ortografia; o que lá me soou foi isso). Dizem as tradições confusas que é a adulteração de pedra de D. Guilhim.

Que relação prende aquela penedia ao antigo cavaleiro, isso é que eu não sei. Pode ser que êle ali tivesse posto, por serem terras do seu senhorio, algum baluarte para guardar a costa. Quem o deve saber é o mar.[4]

Segundo José Hermano Saraiva, uma «lenda diz que era aquele o marco que balizava os limites da concessão feita por D. Afonso Henriques a Guilherme de Licorne, cruzado que foi senhor da Atouguia e – diz-se – de toda aquela costa marítima até à pedra do seu nome. As vagas despedaçam-se, com fúria brutal, contra os rochedos negros. Não foi com certeza aqui que nasceu o aforismo de água mole em pedra dura. Parece uma fatia despregada do promontório e caída ao mar. A onda bate com força e estrondo; nas marés do solstício o espectáculo é quase aterrador. Só quem alguma vez viu isto pode dar todo o valor à praga local: «Deus te dê tantos cancros quantos ovos eram precisos para partir a pedra do Guilhim!»[5]

Uma outra abordagem ao assunto, da autoria de Moisés Espírito Santo, menciona que a «povoação da Nazaré está rodeada de topónimos fenício-púnicos. Começo pelo nome do célebre penedo Guilhim. O facto de um penedo ser nomeado já denuncia a sua importância mítica. Trata-se duma simples rocha situada em frente do promontório sobre o qual se ergue o farol e o forte de São Miguel. É neste rochedo que se quebram as ondas propulsionadas pelo vento norte. No passado o rochedo devia ser mais imponente. Dizem os letrados da região que o nome Guilhim vem de «Guilherme», um pretenso senhor cujas terras se estendiam até à Nazaré. Trata-se duma etimologia popular. É uma tendência muito antiga (já anterior a Frei Bernardo de Brito) de os letrados portugueses explicarem a história local pelas suas «origens senhoriais» (aldeias ou vilas «fundadas» pelo rei, rainha, etc.). É uma mitogenia bem portuguesa. Para isso não se privam de malabarismos históricos e linguísticos. Ora, antes de mais, e tendo em conta as regras da evolução linguística, Guilhim, não pode provir de Guilherme: segundo a lei do menor esforço – o que é o motor de toda a evolução – é mais difícil dizer Guilhim do que Guilherme, e um vocábulo não evolui para uma versão mais difícil de pronunciar.

A rocha Guilhim é um quebra-ondas. É nele que embatem as vagas antes de chegarem ao promontório, de modo que o mar entra calmo pela enseada adentro. O nome Guilhim provém da sua exacta função natural: gj ym [guelim] «quebra-mar»; é o que aí faz naturalmente a rocha. Tem mais razão de ser do que inventar um proprietário do rochedo.[6]

Pela situação em frente do promontório, também pode ter derivado de gil [gueíl], da linguagem da guerra do século IX a.C. que significava «ante-muro, montão de pedras erguido diante duma cidade na iminência de ser invadida, uma pré-muralha», que o inimigo tinha de remover para se atacar às muralhas: gil ym [guelim] «ante-muralha». É também a ideia que dá a rocha: um obstáculo onde o mar embate antes do promontório da falésia a verdadeira muralha ou guarda do mar, a nazar ea[7]

Seja como for, para as gentes da Nazaré, mais as que viveram nesses tempos em que se enfrentava o mar com o sentimento de incerteza, a Pedra do Guilhim, é um marco para os zonamentos de pesca (pesqueiros na linguagem tradicional da Nazaré) a partir do qual se encontram as diferentes divisões e parcelas que os pescadores distinguem no mar da costa da Pederneira.[8]

Acrescentaríamos, talvez, que a Pedra do Guilhim funcionou durante muitos séculos como um marco geográfico, separando o mar de sul do mar do norte e, acima de tudo, como um ponto de referência sobre o estado do mar, ainda hoje o é para quem conhece a forma como o mar bate naquela rocha.

De uma fronteira também nos parece tratar, posto que o “desaparecimento” da embarcação assim que passava a Pedra, ficando fora do olhar dos que iam como dos que ficavam na praia a seguir esse rumo, também funcionava como um sinal de esperança de que, sem mais palavras da nossa parte, estão bem sintetizadas nas palavras que Alves Redol registou:

Olha Zé, rico filho!… O tempo está a dar uma sota, vai ficar melhor … Já não falta muito. Não espreites, mas eu já estou a ver a pedra do Guilhim. [9]

Muito mais existe escrito sobre a Pedra do Guilhim, mas para este espaço não nos parece justificada uma análise completa ao tema. Deixamos, no entanto, mais uma informação que poderá “baralhar”, ainda mais, esta questão da origem do nome Guilhim, ligando-o ao tal cruzado.

A existência do Serro, Cerro, ou ainda Serra do Guilhim, localizada no Algarve, concelho de Faro,[10] permite-nos questionar se o nome desse acidente geográfico teve origem no mesmo cruzado?

Fica em aberto o assunto.

[1] BRAGA (1871:214)

[2] CASTILHO (1935:88 a 90).

[3] CASTILHO (1935:88 a 90).

[4] CASTILHO (1935:91 a 92).

[5] SARAIVA (1986:153).

[6] O autor baseia-se, nesta definição de função, no Dicionário Schokel «que dá exemplos em Isa., 51:15, Jer., 5:22., 31:35, 51;55, etc.). G.l «onda, vaga, e quebra-mar, frequentemente acompanhado de ym». In Espírito Santo (2004:237-238).

[7] Espírito Santo (2004:237-238).

[8] COELHO (1922:245).

[9] REDOL (1980:267).

[10] Sobre este assunto é vasta a bibliografia. Deixamos, no entanto e como referência, o trabalho de Francisco Luís Pereira de Sousa, O megasismo do 1.̊ de novembro de 1755 em Portugal…: Acompanhado de um estudo demográfico e sôbre rochas de construção, Volumes 1-2, Tipografia Comércio, 1912.

Bibliografia:

BRAGA, Theophilo. Epopêas da raça mosárabe, Imprensa Portuguesa – Editora, Porto, 1871.

CASTILHO, Júlio de. Lisboa antiga: bairros orientais / Júlio de Castilho; anot. Augusto Vieira da Silva. – 2ª ed. rev. e ampl. – Lisboa: S. Industriais da Câmara Municipal de Lisboa, 1935.

COELHO, Possidónio Mateus Laranjo. A Pederneira: apontamentos para a história dos seus mareantes, pescadores, calafates e das suas construções navais no séc. XV a XVII. “O Arqueólogo Português”, série I, volume XXV, Lisboa, 1922, pp. 196-247.

ESPÍRITO SANTO, Moisés. Cinco Mil Anos de Cultura a Oesta: Etno-História da Religião Popular numa Região da Estremadura, Assírio & Alvim, 2004.

REDOL, Alves. Uma fenda na muralha, Obras Completas de Alves Redol, Publicações Europa-América, 1980.

SARAIVA, José Hermano. BARROS, Jorge. O Tempo e a Alma: Itinerário Português, Primeiro Volume, Do Minho a Lisboa, Edição Círculo de Leitores, 1986.

Foto: Carlos Fidalgo, 2019.