Fim de um ciclo

Alexandre Herculano dixit:

«É contra a índole destruidora dos homens de hoje que a razão e a consciência nos forçam a erguer a voz e a chamar, como o antigo eremita, todos os ânimos capazes de nobre esforço para nova cruzada. Ergueremos um brado a favor dos monumentos da história, da arte, da glória nacional, que todos os dias vemos desabar em ruínas.

Esses que julgam progresso apagar ou transfigurar os vestígios venerados da antiguidade que sorriam das nossas crenças supersticiosas; nós sorriremos também, mas de lástima, e as gerações mais ilustradas que hão de vir decidirão qual destes sorrisos significava a ignorância e a barbaridade, e se não existe uma superstição do presente como há a superstição do passado.

A mais recente quadra de destruição para os monumentos, tanto artísticos como históricos, de Portugal, pode dividir-se em duas epochas bem distinctas. Acabou uma: a outra é aquella em que vivemos.»[1]

Não são necessárias mais palavras para anunciar o final do Pedra do Porto no formato conhecido. Alguns rejubilarão de alegria, outros sentirão a falta da partilha de curiosidades sobre a nossa história e, outros ainda, pensarão que esta decisão não tem qualquer razão de ser. Mas acreditem que sim.

O Pedra do Porto não irá acabar. Vai, no entanto, mudar de função.

Em breve voltaremos (somos assim como a carraça)

Um bem-haja a todos e, por último, mas mais importante, uma singela Homenagem a todos os antepassados pela sua dedicação, coragem e resiliência.

A todos eles devemos, penso eu, um enorme sentimento de gratidão. Assim consigamos igualar a força da vontade, a força da necessidade de sobreviver em tempos, inquestionavelmente, difíceis.

Apenas os que vivenciaram esses tempos – já poucos restam – ou os que humildemente “andam” nesta “vida” da investigação poderão ter uma ideia do que os nossos antepassados passaram para nos deixar um qualquer legado, nem que fosse um grão de areia ou uma mão cheia de terra.

[1] HERCULANO, Alexandre. Documentos PátriosOpusculos, Tomo II, Lisboa, em casa da viúva Bertranda & C.ª, Chiado, MDCCCLXXIII.

Chalet Salvadora: o antes e o agora

Foto: Silvano Bem (Julho de 2020)

Com a ajuda de alguns amigos, em particular do Silvano Bem, hoje podemos ter 99,99% de certeza que o “Chalet Salvadora” ainda continua no local onde foi construído inicialmente. 

Naturalmente que as alterações que foi sofrendo ao longo dos anos, e as várias utilizações que foi tendo, transformaram a sua arquitectura, adaptando-a às funções e necessidades que, paulatinamente, iam sendo “pensadas”.

Trata-se de um processo absolutamente normal, seja em casas para habitação, espaços comerciais e até igrejas (note-se nas várias transições/cronologia dos estilos arquitectónicos destes espaços: românico, gótico, barroco…etc).

No entanto, o que importa neste caso, é que apesar do tempo, conseguimos identificar e “ligar” o edifício actual com o da gravura dos princípios do século XX. E é isto que, na nossa opinião, é extraordinário.

Esta é, por ventura, a prova provada que podemos manter a “identidade” de um qualquer edifício sem o demolir por completo, reaproveitando a sua essência, a sua história, a sua identidade, ainda que no seu interior o programa arquitectónico sofra as alterações necessárias para a função que se pretende dar ao mesmo.

Isto tem, talvez, um pouco a ver com um tema que importa ter em conta: a relação entre o Progresso e a Identidade Cultural, tema já por mim abordado em 2012 (ver link).

Por último um agradecimento a todos os que colaboraram nesta, talvez simples, análise.

https://www.researchgate.net/publication/336642130_O_Progresso_e_a_Identidade_Cultural