“Os Bárbaros” – Um texto da autoria de Maria Judite Carvalho

Primeiro vieram a cavalo e a galope. Guerreando porque serem guerreiros era a sua condição e a sua razão de viver. Os bárbaros. Alanos, Vândalos e Suevos. Mais tarde os Visigodos. Algo os atraía já neste claro azul quase africano. Vinham dos seus países brancos e invernosos, talvez gostassem do brando clima e do azul do céu, gostavam decerto das terras que conquistavam aos indígenas, e onde se instalavam. Depois pararam as visitas violentas. As últimas, e mais breves, foram as francesas.
E durante muito tempo não houve incursões. Até ao advento do turismo. E então ei-los que se puseram a chegar todos os anos pelo verão, voando ou de camioneta de vidraças panorâmicas e ar condicionado, de automóvel também, naturalmente, e até em auto-stop, que é a maneira atual de viajar na garupa do cavalo. Enchem os hotéis de todas as estrelas que há na terra e também os parques de campismo onde erguem as suas tendas de paz. Vêm armados de máquinas fotográficas e de filmar. E só lhes interessam as coisas, e eles próprios no meio delas. Quanto aos indígenas, querem lá saber. Como dantes.
É uma coisa engraçada, o turismo. Porque não traz nada de verdadeiramente novo. Como, de resto, nada neste mundo, ou tão pouco. As coisas é que mudam de nome e de rosto com o tempo. Mas repetem-se incessantemente.
Estou a escrevinhar estas regras – já muitas vezes escritas – porque avistei agora mesmo, da minha janela, um grupo loiro e colorido de vikings, saindo do seu drakkar terrestre e sem cabeça de dragão.

Maria Judite de Carvalho , Este tempo. Ed. Caminho, Abril, 1991.

Sobre as crónicas da autora: https://leiturasemclube.blogspot.com/2018/11/este-tempo-cronicas-maria-judite-de.html (acedido em 13/10/2019)

Maria Judite de Carvalho (1921-1998) foi uma escritora portuguesa, unanimemente considerada uma das vozes femininas mais importantes da literatura nacional do século XX. É autora de contos, novelas, crónicas, assim como de uma peça de teatro e de um livro de poesia. Trabalhou nos periódicos Diário de Lisboa, Diário Popular, Diário de Notícias e O Jornal. Foi casada com Urbano Tavares Rodrigues e viveu em França e na Bélgica entre 1949 e 1955, ainda antes da sua estreia literária. O resto dos seus anos, passou-os na capital portuguesa.

«Flor discreta» da nossa literatura, como lhe chamou Agustina Bessa-Luís, a obra de Maria Judite de Carvalho foi várias vezes galardoada, destacando-se o Grande Prémio de Conto Camilo Castelo Branco, o Prémio da Crítica da Associação Portuguesa de Críticos Literários, o Prémio P.E.N. Clube Português de Novelística e o Prémio Vergílio Ferreira.

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