O “Pinhal do Rei” nas palavras, sábias, de Afonso Lopes Vieira

Afonso Lopes Vieira tem, na verdade, uma obra incontestável, de grandiosa importância na literatura portuguesa e, para o que nos importa, um contributo para essa histórica mancha verde que no ano de 2016, Outubro, foi, literalmente, arrasada pelas chamas de um fogo sem regra, com várias frentes, ao que se supõe suspeitas, e para o qual os nossos Bombeiros Voluntários, apesar da quase suplantação da condição humana a que voluntariamente se entregaram numa luta desigual, conseguindo, estoicamente,  minimizar os danos de dois dias de grande tristeza para a região de Leiria mas também para este Portugal desfeito, ano após ano, em vastos corredores de solo queimado que substituem o verde da paisagem que nos caracterizava.
Sem mais delongas, porque o assunto carece de maiores atenções, apresente-se um poema de Afonso Lopes Vieira intitulado “Pinhal do Rei” que nos conta uma história, nos transporta para esse pedaço de paraíso, para esses odores frescos em que o sol espreita a cada árvore, a cada ramo, a cada pinha dependurada.
Para um tempo em que o Pinhal do Rei tinha um objectivo, uma função, além das que naturalmente lhe foram conferidas ao longo dos séculos.
Tempos de um tempo que talvez volte daqui a gerações, isto caso uma outra tragédia não dê continuidade à progressão da economia da madeira em detrimento da manutenção do pulmão do Oeste Litoral, da “voz do mar”, como refere Afonso Lopes Vieira.

Diz assim Afonso Lopes Vieira:

« Catedral verde e sussurrante, aonde
A luz se ameiga e se esconde
E aonde, ecoando a cantar,
Se alonga e se prolonga a longa voz do mar:
Ditoso o “Lavrador” que a seu contento
Por suas mãos semeou este jardim;
Ditoso o Poeta que lançou ao vento
Esta canção sem fim …

Ai flores, ai flores do Pinhal florido,
Que vedes no mar?
Ai flores, ai flores do Pinhal florido,
Rei Dom Dinis, bom poeta e mau marido,
Lá vêm as velidas bailar e cantar.

Encantado jardim da minha infância,
Aonde a minh’alma aprendeu
A música do Longe e o ritmo da distância,
Que a tua voz marítima lhe deu;
Místico órgão cujo além se esfuma
No além do Oceano, e onde a maresia
Ameiga e dissolve em bruma,
E em penumbras de nave, a luz do dia.
Por este fundos claustros gemem
Os ais do Velho do Restelo…
Mas tu debruças-te no mar e, ao vê-lo,
Teus velhos troncos de saudosos fremem…

Ai flores, ai flores do Pinhal louvado,
Que vêdes no mar?
Ai flores, ai flores do Pinhal louvado,
São as caravelas, teu corpo cortado,
É lo verde pino no mar boiar.

Pinhal de heróicas árvores tão belas,
Foi do teu corpo e da tua alma também
Que nasceram as nossas caravelas
Ansiosas de todo o Além;
Foste tu que lhes deste a carne em flor
E sôbre os mares andaste navegando,
Rodeando a terra e olhando os novos astros,
Ó gótico Pinhal navegador,
Em naus erguida levando
Tua alma em flor na ponta alta dos mastros!…

Ai flores, ai flores do Pinhal florido,
Que vêdes no mar?
Ai flores, ai flores do Pinhal florido,
Que grande saudade, que longo gemido
Ondeia nos ramos, suspira no ar!

Na sussurrante e verde catedral
Oiço rezar a alma de Portugal:
Ela aí vem, dorida, e nos seus olhos
Sonâmbulos de surda ansiedade,
No rôxo da tardinha,
Abre a flor da Saudade;
Ela aí vem, sòzinha,
Dorida do naufrágio e dos escolhos,
Viúva de seus bens
E pálida de amor,
Arribada de todos os aléns
Deste mundo de dor;
Ela aí vem, sòzinha,
E reza a ladainha
Na sussurrante catedral aonde
Tôda se espalha e esconde,
E aonde, ecoando a cantar,
Se alonga e se prolonga a longa voz do mar…

VIEIRA, Afonso Lopes. In Portugal: A Terra e o Homem – Antologia de Textos de Escritores do Século XX, por David Mourão Ferreira, II Volume, 1ª Série, Edição da Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, 1979, p. 193-194

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