O Pinhal de Leiria nas palavras de Arala Pinto

Como todos os que lerem este post também eu sinto uma enorme tristeza pelo desaparecimento de grande parte do nosso Pinhal de Leiria, ou Pinhal do Rei.
Mas, se as palavras me faltam e os olhos se escurecem por tal devastação, os sentidos da memória esforçam-se em recordar o verde, o cheiro e a vida que aquele pulmão, agora negro, continha.
À falta de argumento de prosa, capacidade que não possuo, lembrei-me de reler partes do trabalho de Arala Pinto, “O Pinhal do Rei” que me fez sentir, ainda mais, a tristeza e revolta pela tragédia que se abateu naquele território, destroçando vidas, modificando o curso da História.
Nem precisamos de ir fundo na leitura para termos uma ideia do que representava aquele pulmão verde, aquela madeira, descendente da que deu forma às naus que fizeram de Portugal um país aventureiro, descobridor de novas rotas marítimas, em que o comércio e a evangelização foram as principais vertentes. Mas não se alongue sobre assuntos que não cabem neste pequeno, e humilde, gesto de Homenagem à Natureza Morta, às famílias que perderam o fruto de uma vida, às gerações que não terão a oportunidade de usufruir de um espaço que, ligado à História, era um local de lazer e contemplação para todos os que tiveram a sorte de o conhecer. 
Talvez a “fotografia” mais elucidativa do Pinhal do Rei esteja nas palavras de Arala Pinto que agora se transcrevem parcialmente:
« A Terra que pisamos é a multimilenária habitação do homem a sofrer mutações constantes no decorrer do tempo; tablado imenso onde os agentes externos pontificam dia a dia, auxiliados de quando em quando por energias interiores que lhe modificam o semblante sempre torturado, e tantas vezes indecifrável para o ser humano.
Por tal motivo, cometimento desmedido é o meu ao pretender fazer a história dum pequeníssimo fragmento do humilde planeta, encaixado no litoral do distrito de Leiria, que veio a ser conhecido por Pinhal do Rei – Pinhal Real – Pinhal de Leiria e Pinhal da Marinha – com uma área apenas de 11.331, 94 hectares.
Distrito de Leiria, porção de solo pátrio onde mais intensamente pulsou o coração de Portugal! Se no teu seio tens castelos e mosteiros, no litoral tens um pedaço de chão que veio do fundo do mar, e que produziu o lenho que para o mar imenso nos levou em caravelas e naus depois de afeiçoadas pelos náuticos de antanho. […]
Pinhal de Leiria, maior monumento de Portugal, bem digno eras que outra pena que não fôsse [sic] a minha contasse aos presentes e aos vindouros a tua história. És o exemplo patente duma riqueza que todos os dias se avoluma no sáfaro areal, originária de trabalho e de paz para a pequena colmeia humana que à tua volta vive, exemplo modelar a seguir. […]
Sem a existência do Pinhal de Leiria, talvez os Lusíadas não dissessem»*

Eis aqui as novas partes do Oriente
Que vós outros agora ao mundo dais, 
Abrindo a porta ao vasto mar patente,
Que com tam forte peito navegais.
(Lusiadas – Canto X)

E desfilando vai Arala Pinto, ao longo de 487 páginas, pelo Pinhal do Rei, esse Pinhal já quase desaparecido.
Das muitas palavras que escreveu, deixa-se aqui as que entendemos colocar como memória e homenagem, como já se notou, ao pulmão que a todos enchia de oxigénio e que agora luta por reerguer-se no seu intemporal esplendor.

*PINTO, Arala. O Pinhal do Rei, Volume I, 1938, pp.13 a 19.

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