O confronto emocional no conhecimento dos nossos antepassados:uma reflexão

Em abono da verdade, porque da verdade se trata, foi numa simples conversa com a minha mãe  que comecei a nutrir o interesse pelo conhecimento dos meus avós (nas fotos: Abílio d’Oliveira Fidalgo e Jesuína Murraças)

Se na altura se tratava de iniciar um estudo genealógico ou não, pouco me importava. Nem era essa a minha intenção ou, melhor dizendo, o próprio conceito não era do meu conhecimento.

Eram, antes porém, as fotografias dos que não conheci, porque morreram antes de eu nascer, que me despertaram a curiosidade. Quem eram? Como eram? Qual a “herança” social que deixaram para os seus descendentes?

De um grão de areia, de conversas e descrições, surgiu – assuma-se – uma montanha de curiosidades, da necessidade de ir mais além, de ir a jusante da fotografia, depois do horizonte que os meus pais me contavam e, sem querer, me condicionava.

Contavam-me histórias quase irreais. Histórias de vida que me fascinavam, momentos de grande orgulho – com certeza partilhado por todos os que andam no mundo da “sua” genealogia – e eu lá ia, levado pelos relatos, pelas fotos e pela, já referida, herança social.

Dois avós pescadores, e os dois a morrerem na praia!! – um acometido por uma “trombose” e o outro morto pela quilha de um barco onde andava quando o varavam ao mar.

Ora, dito assim, eu era descendente daquelas famílias que são genuínas da Praia da Nazaré. Neto de pescadores!? O que mais poderia querer para afirmar o meu estatuto social nesta terra?

Mas os tempos corriam, a investigação prosseguia, e fui-me apercebendo que os dogmasda genealogia são uma realidade, quase um feudo ideológico. Afinal o meu apelido “Fidalgo” não era de sangue azul, nem o poderia ser.

O meu último, “Guincho”, apelido antigo por estas bandas não vinha também, e com toda a certeza, de uma qualquer “artéria com sangue azul”.

Não fiquei triste, nem minimizado, antes porém alavancou a minha vontade de pertençaa uma terra feita de suor e dor. Uma terra de sofrimento, de grandes Homens e grande Mulheres.

Eles, exímios nas lutas de “tapete” com o mar e elas grandes “administradoras” e professoras catedráticas na “arte” – por que disso se trata – da educação dos filhos, netos e, para os casos que se enquadrarem, bisnetos. Mestras na gestão do Lar, da defesa da sua família. Enormes Mulheres da Nazaré, um tema que não se esgota, uma génese que orgulha desde sempre e para sempre.

Mas, voltando ao assunto, ainda que dele não se tenha desviado, acabaria por entrar nesse mundo, no mundo da pesquisa dos nomes dos pais, filhos, avós, etc….

Naturalmente que poucas pessoas se importam de pertencer, ou ter pertencido ao Povo. Mais fácil é pertencer à Nobreza.

Ai defendem, justificando, os nomes, os títulos e até na pesquisa genealógica consegue-se ir mais além, mais perto de um ideal histórico-social, de um “não sei quê” de importante.

Os outros, os do Povo, os das calças rotas, os de apelidos ligados à terra e ao mar, podem não importar a algumas mentes mais – digamos – de “sangue azul clarinho”.

O problema – será sempre assim – destas coisas da genealogia, prende-se com as “emoções de pertença”, com a ligação a uma sociedade passada que, sendo passada, não podemos transportar para o presente, por muito que se queira, que se deseje. Contudo, a herança genética não se limita às questões da fisionomia ou da morfologia mas, segundo parece, a uma “revolução” de emoções que têm a sua origem na vontade de conhecer.

Aliás, quando se faz genealogia entramos no campo da História e, nesse âmbito, por história deve entender-se algo mais que o simples transporte do peso-morto do passado – acontecimentos, datas memoráveis, dinastias e iconografias, por oposição à naturalidade, de uma determinada prática ou instituição social. (MANDALIO: 2002).

Talvez por isso a genealogia deva ser considerada como uma ciência cujo objectivo se aproxima do conceito antropológico do estudo de comunidades nos seus mais variados tempos e espaços.

Contudo, a emoção de construir uma árvore genealógica contradiz esse conceito, posto que à memória, seja qual for, dos nossos antepassados se agrega um sentimento de pertença, de continuidade, de compreensão dos factos que a ordem das coisas varia em função do espaço (cultura) e do tempo (contexto histórico) traduzindo-se na adopção de uma postura mais reflexiva em relação ao mundo social e à sua investigação. Pode mesmo dizer-se que a capacidade para a auto-reflexão e a consciência histórica andam a par. (MANDALIO: 2002).

Assim, a genealogia, na minha opinião, reveste-se de um confronto involuntário de emoções por parte de quem pesquisa – ainda que possa parecer uma simples necessidade de âmbito familiar –  mas também de uma forma de transmitir às gerações mais novas os elementos que presidiram à vivência dos seus antepassados. Mas sempre incompleta.

Bibliografia:

AA.VV. Teoria Social, Bryan S. Turner, ed., Edições Difel, 2002, pp. 283-308.

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