O “BAPTISMO DO PRÍNCIPE DE DONGO” (Angola) e a referência à Igreja de Nossa Senhora de Nazareth, à Pederneira e ao Forte

BAPTISMO DO PRÍNCIPE DE DONGO [1]

(1-5-1674)

SUMARIO- Como o Príncipe D. Filipe, filho do Rei desbaratado do Dongo, veio prisioneiro para Alcobaça e ali foi baptizado no dia 1 de Maio de 1674, sendo padrinho o D. Abade Geral, na presença de todo o convento.

Segunda feira vinte & noue de Mayo de 1673, entrou em este Real Mosteiro de Alcobaça o Princepe negro chamado Golamona, que vale o mesmo que D. Felipe, vnico filho de Gola ou D. loam de Dongo, e Pedras, e da Rainha Camaça, idest D. loanna, os quaes Manefutos ou Reys seus Paez morreram ambos na guerra que o nosso Governador de Angola lhe fez o ano passado de 1671 e o dito princepe ficou prisioneiro com Cabangua idest D. Diogo seu tio, irmão del Rey seu pae, e ambos vieram pera Lisboa aonde o tio morreu de bexigas e o Princepe por ordê do Princepe Dõ Pedro nosso Senhor, foy mãdado a esta casa pera nella se crear, e doutrinar por ainda ser creança de dez annos pouco mais, ou menos, ordenãdo per carta sua que escreveu ao nosso Rm.° p.e Geral o D.or Fr. Antonio Brandam seu Esmoler mor, que o dito princepe negro se chamasse por Excelencia, e hindo ao Coro tivesse o primeiro lugar, como teve, á missa de pontifical é dia de Corpus Christi, que foy na 5. feira depois de sua vida e nos mais em que vae ao Coro. / /

Na uinda deste Princepe para se doutrinar neste real mosteiro se pode considerar há mistério. Em que segundo affirma o Licenceado lorge Cardoso no seu Agiologio Lusitano no § 8, pag. 35, se acha que os primeiros Pregadores do sagrado Euãgelho que incoaram a fé catholica em Sam Thomé, e Congo, foram Religiosos deste Real mosteiro de Alcobaça. Mas na vinda deste Princepe de Angola a este Reino se pode aduertir que a primeira terra que auistou o nauio, em que uinha foj a igreija de nossa Senhora de Nazareth, destes Coutos o que sucedeo a […] de Agosto do anno passado de 1672, e o nauio esteue á capa com o forte da villa de Pederneira iunto da Senhora, pedindo embarcaçam pera ahi se dezembarcar, e por o mar auer leuantado se lhe não deo, e fazendose na volta de Lisboa encontrou no caminho hua nao da índia, cõ a qual entrou pella barra de Lisboa a 20 do mesmo Agosto, dia de nosso P.e S. Bernardo.

E tratandose na Corte aonde se auia de crear e doutrinar este Princepe, se Decretou logo seria neste Real mosteiro como consta da Gazeta que no mesmo anno passado se imprimio, em que se dá conta da batalha em que ficou prisioneiro, e gloriosa vitoria que as armas Portuguesas gouernadas em Angola por Francisco de Tauora, Irmão do Conde de S. loaõ, alcançaram delRey D. loão seu pae, conquistando e senhoreando a notauel força das Pedras.

Dia de S. Phelippe e Santiago primeiro de Mayo de 1674, entrando em duuida se este Princepe negro seria ou naõ bautisado, e auendo elle mesmo por ueses pedido o bautisassem, presuadindose que o naõ era em resaõ de vários sonhos que tinha e espantosas visoês do Demonio, o bautisou in forma ecclesiae, sub cõdictione o N. P.e Fr. Vduardo de Vascõs.os depois de vesperas na Capella mór deste mosteiro. Foy Padrinho o N. Rm.° P.e D. Abbade Geral, assestio o Cõuêto e o R.do Vigairo desta Villa. Deuselhe o mesmo nome de Dom Phelippe.

NOTA: O Ms. 7332 não existe actualmente na BNL. Copiamos o documento do livro de Alfredo Felner, Angola, Coimbra, 1933, pp. 468-469, documento n.° 43, em fotogravura.

BNL., Ms. 7332

[1] BRÁSIO, Padre António. Monumenta Missionária Africana, África Ocidental (1666-1885), Academia Portuguesa da História, Coligida e Anotada pelo Académico de Número Padre António Brásio S.S.SP., VOL. XIII, Lisboa, MCMLXXXII, p. 297- 298.

Postal: Farol da Nazaré, ca 193-] – Biblioteca Nacional Digital (purl.pt) (acedido em 25/04/2021)