Memórias Paroquiais – Famalicão

Inscrição da Freguezia de Famalicão
Fica este lugar, e freguezia de Famalicão na Estremadura, e patriarcchado de Lisboa comarca da cidade de Leiria. Pertence o dito lugar a dous termos; ao da villa de Alfeizerão, e ao da villa da Pederneira. Da estrada para baixo que medea o dito lugar, e freguezia, he termo da villa de Alfeizerão, a que chamão Famalicão de Baixo; e da dita estrada para cima he do termo da villa da Pederneira; mas hum, e outro termo freguez, e sogeito á parochial de Nossa Senhora da Vitoria deste lugar; advertindo porem que esta igreja foi antigamenta anexa a duas freguezias; o saber; os freguezes do termo de Famalicão de Baixo erão sogeitos á parochial da villa de Alfeizerão, e os do termo de Famalicão de Cima, á da villa da Pederneira; atendendo outrosim os antigos á larga e extença distancia que medea deste lugar a húa, e outra villa cuja razão não podião inteiramente, e sem excessivo trabalho exercer as funções parochiaes na administração dos sacramentos; pozerão com effeito neste lugar hum cura, e unidos os dous termos, ficarão sendo freguezes desta parochial de Nossa Senhora da Vitoria, ficando separados hum, e outro termo de parochianos das ditas villas; por cuja separação ficou a fabrica desta igreja obrigada a contribuir annualmente dous arrates de cera a cada húa destas duas igrejas. Passados alguns annos, determinousse fazerem-se os parochos desta igreja vigarios colados, e comigo que actualmente o sou, tera havido da sua ereção a esta parte oito vigarios.
Desta freguezia he donatario o Dom Abbade Geral do Mosteiro de Alcobaça que actualmente o he o Reverendissimo Padre Frei Manuel de Barboza.
Tem esta freguezia duzentos, e dezassette vezinhos. Tem seiscentas, e trinta, e seis pessoas, mayores, e cento e quinze menores.
Está assituada a dita freguezia em hum valle todo areozo porque razão se faz pouco apprazivel e menos frutuosa por lhe ficar encostada a Serra da Pescaria, de que adiante farei menção, e outro monte da freguezia da Cella, e por consequensia se não discobrem povoaçoes.
A igreja parochial está assituada no meyo deste lugar. Não tem lugares de que se faça menção; ainda que por dispersa comprehende varios cazaes,e aos principaes, e mayores; lhe chamão de per si, Rapozos, Macarca, Reballo, Matta da Torre, Cazaes de Baxo, e Serra.
O orago desta igreja he de Nossa Senhora da Vitoria. Tem trez altares, a saber, o altar mór com o Sacramento, o do Divino Espirito Santo, e o das Almas, Tabem (sic) tem seis irmandades, a saber, a do Santissimo Sacramento, do Divino Espirito Santo; de Nossa Senhora do Rozario; do Martyr São Sebastião; de Santo Antonio; e das benditas Almas do Purgatorio.
O parocho de que já fiz menção, he vigario collado, pello Excelentissimo Senhor Cardeal Patriarcha, mas com  aprezentação in solidum do Reverendissimo Dom Abbade Geral de Alcobaça, como senhor donatário. O rendimento da dita igreja, consta de hum moyo de trigo, de hua pipa de vinho, e doze mil reis, que tudo dá o dito Mosteiro de Alcobaça, e o mais que dá o pé de altar, regulando huns annos por outros, terá o rendimento de centto, e dez, até cento, e quinze mil reis, pouco mais, ou menos.
Tem a dita igreja húa só cappella anexa do titulo de Santo Antonio nos Cazaes dos Rapozos. A causa da sua ereeção, foy pella commodidade que aos seos moradores faz; ouvindo nella missa nos dias de preceito; para o que pagão annualmente a hum cappellão; indo este lá dizerlha; assim de se escuzarem os mais de seos moradores de virem á sua parochial, porque alem de Ter sua longitude, se faz seu caminho pouco viavel; principalmente no tempo de inverno; E a dita cappella foy mandada benzer para para nella se celebrar a primeira missa pelo Emminentissimo Senhor Cardeal Luis de Souza Arcebispo de Lisboa, como consta da sua provizão passada em dez de Junho de 1701.
Os frutos da terra que seos moradores recolhem em mayor abundancia, são, trigo, milho, e feijao. Tambem a dita terra produz suficientemente cevadas, centeyos, tremossos, favas, ervilhas, e outros legumes desta qualidade; como tambem vinhos, tem poucos arvoredos, e por consequencia poucas frutas; e só he abundante de figos; porque se vé revestida; de altas, e frondozas figueiras.
Jumto a este lugar está húa sumptuoza quinta dos Religiozos de Alcobaça, a que chamão a Quinta da Carvalhança, he espassosa, tem quatro celleiros no seu interior, varias cazas de abeguaria, ornada de abundantes janellas, e das que fronteão o norte, se discobre hum dilatado campo dos ditos Religiozos, que em abundancia ferteliza muito milho, e feijão; junto a este se avista tambem hum cellebrado campo chamado o Dormão; o qual se acha inculto pella pouca exonoração e regresso de suas agoas, que por muito copiosas está sendo hua famosa lagoa em que se recreão? Varios curiozos vadiando-a em barquinhos, e caçando nella muitas e outras aves de arribação, que em abundancia ali vão pastar.
Entre esta Quinta, e campo, medea hum antiguissimo castello, a que o vulgo intitulaa ser de mouros; Mas como tão antigo, se acha totalmente demolido, e arroinado, em forma que já se não avista, mais que as suas bazes, e fundamentos; e destes se infere Ter sido magnifico, e as pedras do seu material, são quasi todas de cor preta.
He este dito lugar coutto do Mosteiro da villa de Alcobaça, de que a dita villa he cabeça e o mosteiro senhorio.
Dista este lugar da cidade de Lisboa capital do patriarcado dezoito legoas.
Achasse no interior das fazendas da Quinta chamada das Donas  no arrabalde deste lugar hua nativa agoa stagnada, a qual sahe bastantemente tepida; não consta de suas virtudes, talvez por não ser esperimentada, e esta retrocedeu na occasião do impetuozo terremoto do ano de 1755; mas passados poucos dias, tornou a seu ser  em que existe. Tambem me parece ser justo trazer á memoria que esta dita agoa por sua esquissatica [?] qualidade não custuma degerir, nem cozer qualquer casta de legumes; mas antes a experiencia tem mostrado, que por mais que os ditos legumes fervão na dita agoa para haverem dese cozer ao lume, então se vé que endurecem mais; isto he o contrario do que ordinariamente sucede metendo na dita agoa, carne, peixe, ervas, e outras quaisquer qualidades; por que estas coze perfeitamente como qualquer agoa.
A Serra desta freguezia de que posso fazer menção, he a chamada Serra da Pescaria, e estaa como pequenaa terá de seu comprimento, e extenção legoa, e mea; principia nas pontes da barca, caminho que vay á villa da Pederneira, e tem seu fim no Forte da villa de São Martinho, e por consequensia se vé que fica ao lado do mar oceano.
A sua largura, principia deste lugar de Famalicão, e conclue nas margens do dito mar.
Tem a dita serra em si varios cazais, e ao longo della, nas margens do mar, tem o Excelentissimo Marquez de Abrantes húa quinta, que produz em abundancia trigo, milho, cevadas, e outros legumes?
Junto ás cazas da dita quinta, esta fundada hua irmida consagrada em louvor de São Gião, e como esta totalmente se acha demolida e arroinada por sua immemoravel antiguidade, mandoo um doutor vizitador em capitutulos (sic)  de vizita, se tresladasse o dito santo para a igreja parochial desta fregezia, por achar indecente a existencia do dito Santo em lugar tão improprio, com tão pouca veneração, e cultyo. E por isso se acha agora nesta dita igreja no altar do Divino Espirito Santo, aonde o povo o venera e louva com devoção.
Nas costas desta irmida se acha hua pedra comprida, e bem lavrada, como cousa dezestimada, jaz entre, huns silvados e tem hum mal figurado letreiro, cuja significação se pode ver na Monarchia Luzitanea, primeira parte LIVRO 3 Folhas 319, e neste proprio lugar estão mais duas pedras compridas no chão, como marcos, que se diz serem sepulturas dos mouros, cujas letras, ainda se divizão claras.
Apartada desta quinta da irmida de São Gião cousa de dous tiros de bésta contra o norte havia antigamente húa fortaleza não muito sumptuosa, e esta por sua antiguidade se acha dissipada, e totalmente demolida. O fim, e ministerio da dita torre, dizem seria para que esta tivese lume de noite para que as barcaças, e navios de pescaria atinassem o porto por onde havião de entrar quando viessem de noite por aquella costa, que já no tempo de agora, não admitta em si embarcações por não poder entrar pella foz do rio, que se acha impedido com muitos baxos de area, que o continuo movimento do mar faz em toda aquella praya; e supposto que a torre está de todo desfeita, e a pedraria della levada em barcos para lastros de navios ainda ali se vé húa pedra com outro letreiro esculpido.
A mayor parte da dita serra he cultivada pelos seos moradores, a qual produz suficientemente trigo, milho, feijão, cevadas, ervilhas, favas, e como de si he aspera, e falta de agoas, não produz outros frutos de mimo.
A qualidade seu temperamento, he fria, aspera, e dezabrida pelo excessivo impulso que ali faz o norte, por cuja razão se não podem conservar, vinhas, e arvores de fruto.
A cassa que a dita serra em si cria, são coelhos, lebres, e tambem algúas perdizes, e os gados que nella se crião, são cabras, ovelhas, e boes.
Isto he o de que posso dar conta nesta minha freguezia deduzido de húa exacta diligencia que fiz, nesta inquirição a qual he verdadeira, e não faço menção dos mays interrogatorios, por delles não ter que dizer nesta freguezia. Famalicão 2 de Julho de 1758. O Vigario Manuel de Mora?
Fonte: http://digitarq.arquivos.pt/details?id=4240028 (acedido em 3/12/2017)

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