Embarcações com os nomes de “Nazaré”, “Santa Maria da Nazaré” e “Nossa Senhora da Nazaré”, segundo uma recolha de Quirino da Fonseca

Caravela redonda do séc. XVII (de um quadro do Santuário de N.ª  S.ª  da Nazaré)

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O contributo de Quirino da Fonseca para o conhecimento das embarcações com invocação a Nossa Senhora da Nazaré[1]

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Século XIV

«Séc. XIV – Reinado de D. Pedro I e D. Fernando I (1357 a 1383)

No reinado de D. Fernando I, época em que já vemos bastantes naus prestando serviço entre nós, quer em transportes mercantes, quer em acções militares, uma delas somente, encontramos nomeada, a saber:

  1. NAZARÉ (S.TA MARIA DA)

Existia em 1382, isto é, em fins deste reinado [D. Fernando] e pertencia a D. Fernando, o que vale dizer que era do Estado e não de particulares.

Para aquele tempo, julgava-se grande barco; – “da nossa naao grande sancta Maria de Nazaré” – contêm o diploma que isenta o seu mestre, João Dominguez, de ser constrangido a satisfazer – “aquilo que ele hade pagar em cada ano das nossas casas em que ora mora na cidade de Lisboa”.[2]

Séc. XV – Reinado de D. Afonso V (1438 a 1481)

  1. NAZARÉ (SANTA MARIA da)

Fazia viagens para Marrocos em 1453, capitaniada[3] por João Borges e transportando 30 pessoas.[4]

Reinado de D. João II (1481 a 1495)

  1. NAZARÉ (S.TA MARIA DA)

Foi lançada ao mar em 1489.

Até Fevereiro de 1495, fez oito viagens por mandado de D. João II, em positiva concorrência ao comércio dos Venezianos, sendo 4 dessas viagens ao Levante e 4 a Flandres.

Entre as principais mercadorias que transportou, incluem-se trigo, farinha, biscoito, carne, pescado, vinho, azeite, panos, artilharia, etc.

Foi mestre e patrão da nau, durante esse tempo, Afonso Rodrigues, natural de Lisboa.[5]

Séc. XV a XVI – Reinado de D. Manuel I (1495 – 1521)

  1. NAZARÉ – (ou S.ta MARIA DA NAZARÉ)

Em Março de 1509, partiu para a Índia, a armada de D. Francisco Coutinho que ia embarcando em uma grande e formosa nau a que vulgarmente chamavam Nazaré,[6]que supomos diferente da que, com o mesmo nome, fez derrotas para o Levante e para a Flandres, em tempo de D. João II e que relacionámos sob o nº 31. Com efeito, de 1489 a 1509, isto é, durante 20 anos, não encontrámos referência a qualquer nau que se denominasse Nazaré, e de certo não era a modesta nau de D. João II, que em 1509 ainda estaria em condições de seguir para a Índia, como navio grandioso e capitânia da armada.

Em 1512, preparava-se uma nau, também com o nome de Nazaré, para se largar a caminho da Índia, capitaneada por Jorge de Albuquerque e que devia encorporar-se na armada de Jorge Pereira, mas esta nau ainda não poderia ser a que referimos acima, utilizada por D. Fernando Coutinho em 1509, e que parece ter regressado a Portugal no ano seguinte.

Lourenço Pires era o mestre da nau sob o comando de Jorge de Albuquerque; Pêro Vargas, o escrivão; João Vaz, o despenseiro.

A 6 de Fevereiro de 1512, antes da nau Nazaré largar para viagem, recebeu:

100 quintais de ferro.

100 quintais de sebo encascado.

100 quintais de breu de Biscaia, encascado.

30 quintais de estopa.

40 peças de lonas.

2:000 varas de pano de Vila do Conde.

90 remos de galés.

50 remos de bergantis.

3 quintais de fio de coser.

1:000 agulhas de palombar.

E para mantimento da guarnição, 50 quintais de biscoito, dos fornos de Vale do Zebro,

A armada de Jorge de Melo chegou à barra de Goa a 15 de Agosto de 1512.

A Nazaré não carregou para a viagem de retorno, talvez por necessitar concerto como se depreende da carta que Afonso de Albuquerque dirigiu a El-Rei D. Manuel, em 9 de Outubro de 1512:

– «A Nazaré estava um pouco duvidosa se poderia a carga seguramente tornar nela e que seria milhor vir em uma nau nova» – e acrescenta:

– A Nazaré fará de trez caminhar um: ou irá com mercadoria a Malaca, ou com pimenta a Ormuz ou com carga de especiaria a Moçambique, nas naus de Fevereiro» – Não sabemos qual destas derrotas fez então, mas realmente a nau Nazaré continuou na Índia e tomou parte activa em várias operações guerreiras ao tempo de Afonso de Albuquerque, taes como, na tomada de Banestarim, acometimento de Aden, expedição ao Mar Vermelho em 1513, etc.

Vários documentos da época se referem a material que a nau recebeu durante a sua permanência na Índia:

Em 12 de Outubro de 1512[7]:

2 pipas de «orraca»

Em 20 de Novembro de 1512[8]

100 quintais de ferro.

20 quintais de estopa.

7 pipas de breu.

1 «bota» de fio de cozer.

Em 28 de Dezembro de 1512[9]

27 fardos de arroz «chambaçal».

30 «parás» de arroz «pacharil».

10 «chodenes» de manteiga.

600 cocos.

1 pipa de «jagra».

Em 19 de Janeiro de 1513[10]

5 estrens de cairo.

1 colabrete de linho de Portugal.

6 pares de arpoeiras.

2 peças de cairo para «arevees» (arrebéns?).

10 gamelas.

9 baldes.

1:000 tachas para bombas.

9 meadas de algodão.

2 panelas de pólvora.

Em Setembro de 1513[11]

1 estrêm de cairo.

4 peças de enxarcia.

500 taxas.

1 balde e 2 gamelas.

Conhecem-se os nomes de alguns marinheiros da tripulação da nau Nazaré em 1514, que eram: Pedro Lemos, Miguel Fernandes, Pedro Carvalho, Pedro Gonçalves, Fernão Galego, Vasco Lopes, Êstevão Dias. Os mestres da nau era então Pedro da Canarca, e o dispenseiro, Pedro de Moura.[12]

Em fins de 1514, a nau Nazaré foi concertada, recebendo os calafates que nela trabalharam, 2 barris de vinho e 2 sacos de biscoito.[13]

Em 1515, essa nau fez parte da armada que se destinou à conquista de Ormuz e a operar no Mar Vermelho. Foi capitaniada por Vicente de Albuquerque, sobrinho do Governador que também embarcou na Nazaré.

Em 6 de Janeiro de 1515, Rodrigo de Moura, dispenseiro da nau que estava preparando para a viagem, recebeu:[14]

6 pipas de vinho, uma de Caparica e outra de Têrmo, ferradas.

120 «páras» de arroz.

22 quintais de biscoito da terra, em 20 sacos.

3 barris de nau, de vinagre de Portugal.

15 «chodenes» de manteiga.

6 «chodenes» de azeite de côco.

33 canadas de azeite de Portugal.

4:000 côcos

100 «parás» de sal.

6 jarras vidradas.

20 tonéis ferrados.

17 arcos de tonel, para corregimento de pipas.

65 arcos de barris.

A seu bordo continuou Afonso de Albuquerque, até se agravar a doença de veio a falecer, transferindo-se então para a nau Flor da Rosa, de Diogo Fernandes de Beja.

Até 16 de Abril de 1515 ainda se conhecem mandados com a assignatura de Afonso de Albuquerque, passados a bordo da nau Nazaré.

Por esse tempo, João Dias, era piloto da mesma nau.

Não colhemos indicação do regresso desta nau, a Portugal.[15]

  1. NAZARÉ – (ou S.ta MARIA DA NAZARÉ)

Em Março ou Abril de 1516, partiu para a Índia uma armada cujo capitão mór foi D. João da Silveira, embarcado em certa nau Nazaré, necessariamente distinta da anterior que dissemos encontrar-se havia pouco (meados de 1515) nas operações em Ormuz.

Essa nau da capitania de D. João da Silveira, arribou a Lisboa com grossas avarias devidas a rijo temporal que fustigou a armada, afundando a nau S.ta Maria da Luz, como referimos oportunamente (pág. 225). A nau Nazaré invernou em Moçambique, chegando a Goa em Agosto de 1517. Em 1519, regressou a Portugal, capitaniada ainda por D. João da Silveira. Pilôto da nau, era então Pedro Anes, e feitor, Fernão Rodrigues.[16]

  1. NAZARÉ – (ou Sta MARIA DA NAZARÉ?)

Em fins de 1517, parece ter chegado recentemente à Índia, uma nau Nazaré, capitaniada por D. Diogo da Silveira e pertencente ao notável armador Fernão de Noronha,[17] nau que julgamos ser diversa de qualquer das outras já citadas com igual nome, incluindo da relativa ao número anterior, a qual pouco antes da data a que aludimos agora, chegara a Goa necessitando carregimento.

Essa nau da capitania de D. Diogo da Silveira, fez parte da armada com que o Governador Lopo Soares de Albergaria foi ao Mar Vermelho, em Dezembro de 1517, e, segundo a informação de Gaspar Correa,[18] essa nau ainda estava na Índia em 1519, ao tempo do Governador Diogo Lopes de Sequeira, que a tinha bem concertada para a levar ao Estreito.

Com efeito, em 1520, ela encontrava-se em Ormuz, e desconhecendo-se quando voltou a Portugal.[19]

  1. NAZARÉ – (ou S.ta MARIA DA NAZARÉ?)

No ano de 1517, partiu para a Índia uma armada de sete naus, sob a capitania mór de António Saldanha que ia em a nau Nazaré.[20]

Das naus com igual nome, citadas anteriormente, só a das capitanias de D. Fernando de Coutinho ou de Jorge de Albuquerque (no caso de serem distintas) e relacionadas sob o nº 183 poderiam ter identidade com esta da capitania mór de António de Saldanha, conquanto, para ser a mesma que a dos citados capitães, teria a dita nau efectuado a carreira da Índia por três vezes, durante 8 anos (1509 a 1517), fazendo ali aturado serviço, o que não era vulgar.

Segundo os apontamentos de Falcão, regressou a Portugal em 1518, capitaniada por João da Silva (ou João da Silveira?).[21]

  1. NAZARÉ – (ou S.ta MARIA DA NAZARÉ?) – (ou NAZARÉ GRANDE)

Em 1520 largou para a Índia a armada de Jorge de Brito, na qual se compreendia uma poderosa nau do armador Jorge Lopes, a Nazaré Grande, como a denominara Gaspar Correia[22] e também o cronista João de Barros lhe encarece a importância:

«A Nazaré era uma das mais formosas deste Reino, em que êle (o capitão Gaspar da Silva) levava 400 homens»[23].

Ignoramos o destino que teve, e portanto, se voltou a Portugal.[24]

  • NAZARÉ – (Sta MARIA DA)

Em 1529, largava para a Índia uma nau S.ta M.ª da Nazaré, capitânia da armada de Diogo da Silveira.[25]

  • NAZARÉ – (Sta MARIA DA)[26]

Em 1587, uma nau N.ª Srª da Nazaré, seguiu para a Índia na armada de Francisco de melo Canaviado, indo capitaniada por Heitor Melo Barreto.[27] Voltou a Portugal em 1588, com outras 5 naus.(…)

A dita nau fez outra viagem à Índia, em 1589, compreendida na armada do capitão mór Bernardim Ribeiro Pacheco, e comandada por Sebastião de Macedo.[28] (…)

Regressou a Portugal em 1590 com outras 3 naus. (…)

Em 1592, tornou para a Índia a nau Nazaré,[29] incluída na armada de Francisco de Melo Canaviado capitaniada por Braz Correia.[30] (…)

As circunstâncias do seu regresso a Portugal, em 1593, encontram-se claramente expostas em Diogo de Couto:

«Era nau possante, de bons oficiais e capitão de experiencia. Foi tanta a carga e gente que nela se meteu que vinha por debaixo do mar. E dando-lhe um temporal, abriu gelas picas e delgados da popa e fazia tanta agua que não bastavam as bombas, gamotes e baldes para a alijarem de dia e de noite e com grande temor de se irem a pique antes de poderem chegar a alguma terra em que podessem ancorar e salvar as vidas permitiu Deus que com as muitas diligências do capitão que alem de bom soldado era grande marinheiro poderem chegar a Moçambique em 24 de Março e descarregando-se para se querenar, achou-se estar tão comida de bicho que senão poude remediar e ficou encalhada.»[31]

Notas:

[1]Uma recolha retirada da obra de Quirino da Fonseca, Os portugueses no mar, Memórias Históricas e Arqueológicas das Naus de Portugal, 2ª Edição, Composto e Impresso no Instituto Hidrográfico, Lisboa, 1989. Recolha realizada por Carlos Fidalgo.

[2]Chancelaria de D. Fernando, Livro II, fol. 32 v. In FONSECA (1989:74).

[3]Conforme o original.

[4]Chancelaria de D. Afonso V, Liv. I, fl.82. In FONSECA (1934:564).

[5]A Feitoria de Flandres, Arquivo Histórico, Vol. 6 (Cartas de Quitação), nº 26)., In FONSECA (1989:145 a 146).

[6]Livro de Tôda a Fazenda, etc, Pág. 143. In FONSECA (1989:232 a 236).

[7]Corpo Cronológico, Parte II, Maço 34, Doc. 170. In FONSECA (1989:234).

[8]Idem, Parte II, Maço 35, Doc. 104. In FONSECA(1989:234).

[9]Idem, Parte II, Maço 36, Doc. 72. In FONSECA (1989:234).

[10]Idem, Parte II, Maço 36, Doc. 228. In FONSECA (1989, pp. 234).

[11]Corpo Cronológico, Parte II, Maço 42, Doc. 44. In FONSECA (1989:234).

[12]Idem, Parte II, Maço 44, Doc. 93, 94, 95 e 96. In FONSECA (1989:235).

[13]Idem, Parte II, Maço 54, Doc. 43. In FONSECA (1989:235).

[14]Idem, Parte II, Maço 53, Doc. 70 e 90. In FONSECA (1989:235).

[15]In FONSECA (1989:236).

[16]In FONSECA (1989:236).

[17]Carta de Dinis Fernandes a El-Rei D. Manuel, em 2 de Janeiro de 1518 (Corpo Cronológico, Parte I, Maço 23, Doc. 6). Pelo texto dêsse documento, supomos que a nau pertencia a Fernão de Noronha, e não que chegára da Ilha de Fernão de Noronha, conforme o parecer do considerado investigador Snr. Dr. Laranjo Coelho (A Pederneira, Lisboa, 1924, pág. 35). Com efeito, nas Lendas da Índia, vemos «A Nazaré que era dos Loronhas». (Tomo II, pág. 573).In FONSECA (1989:237).

[18]Lendas da Índia, por Gaspar Correia, Tômo II, pág. 573.

[19]In FONSECA (1989:237).

[20]Livro de Tôda a Fazenda, etc. pág. 147.

[21]In FONSECA (1989:237).

[22]Livro das Armadas, Manuscrito pertencente à Academia das Sciências de Lisboa. In FONSECA (1989:238).

[23]Compêndio Universal de tôdos os Vice-Reis, Governadores e Capitães, pelo padre Manuel Xavier, Nova Goa, 1917, pág. 5.In FONSECA (1989:238).

[24]FONSECA (1989:238). O autor considera que «a grande nau S.ta M.ª da Nazaré, a que nos referimos no nº187 [nosso nº8], pertencente ao armador Jorge Lopes, talvez fosse a mesma que velejou para a Índia em 1522, sob a capitania de D. Pedro de Castro. Tocando em Moçambique, foi cooperar na guerra feita aos indígenas da Ilha de Querimba, e largou depois para Goa, em cuja barra se perdeu. FONSECA (1989:322).

Era muito velha e uma das maiores que até esse tempo se haviam construído em Portugal.» Anais de D. João III, por Frei Luís de Sousa, Lisboa, 1844, p. 95. In FONSECA (1989:322).

[25]Compêndio Universal, etc, p.18.In FONSECA (1989:322).

[26]Esta é a primeira nau com o nome Nª Srª da Nazaré. A partir de 1529 as referências às embarcações que encontrámos não mais utilizaram o nome Santa Maria da Nazaré. Porque terá mudado o nome? Um assunto, na nossa opinião, pertinente que merece ser objecto de reflexão.

[27]Décadas da Ásia, por Diogo de Couto, Déc. X, Liv. X, Cap. VI. In FONSECA (1989:437).

[28]Idem. Suplemento, Déc. XI, Cap. XI. In FONSECA (1989:437).

[29]Note-se que o autor apenas refere o nome “Nazaré”. Talvez a supressão de Nossa Senhora, neste caso, e de Santa Maria, em casos que já verificámos possa ter contribuído, como muitas vezes acontece na bibliografia consultada, para a ideia da existência de naus com três nomes atribuídos à Virgem. Santa Maria da Nazaré, Nazaré e Nossa Senhora da Nazaré.

[30]Compêndio Universal, etc, p.36.In FONSECA (1989:347).

[31]Décadas da Ásia, por Diogo de Couto, Suplemento, Déc. XI, Cap. XXII. In FONSECA (1989:437 a 438).

Imagem e legenda retirada de Caravela | Jaime Martins Barata (tribop.pt) (acedido em 11/03/2021)

This Post Has 2 Comments

  1. Fernando Barqueiro

    Gostei.
    Posso dar uma dica no que toca ao nome da traineira Belmonte, será que tem alguma coisa a ver com o judaísmo, pois a vila de Belmonte foi local de refugio dos judeus.

    1. pedradop

      Caro amigo Fernando,
      A dica é muito pertinente. Continuo sem saber e, por conseguinte, sem saber responder.
      Já tentei perceber se os meus antepassados, aqueles ligados à traineira, tinham na sua ascendência alguém da zona de Belmonte, mas não.
      A avó do meu avô Abílio era de Alhadas de Baixo, Figueira da Foz e da minha avó Jesuína Murraças (esposa do meu avô Abílio) o avô dela era de Torres Novas, Freguesia de São Tiago.
      Assim sendo, não tenho, como nunca tive, como justificar o nome das duas traineiras da Sociedade “Belmonte” que terminou em 1955.
      Um abraço amigo e cordial, agradecendo o comentário e o interesse.
      Este espaço também é vosso, por isso sintam-se à vontade para propor assuntos que considerem pertinentes.
      Carlos Fidalgo

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