Um assassinato, a subida dos Seixos, o Curral do Concelho, as Festas, entre outras coisas….

Um registo que desperta muita curiosidade, não tanto pelo acontecimento em si mas pelas referências que contém.
Confesso que fiquei curioso com a referência à subida dos Seixos e das duas menções à Casa da Câmara da Pederneira, Curral do Concelho e à Cadea, esta última já conhecida de todos.
«Aos onze dias de Setembro de mil oito centos trinta e quatro annos de tarde no Caminho do Sitio por sima da fonte desta Villa da Pederneira ao diante da subida dos Seixos, junto ao augueiro da agoa, da chuva, que corre da fazenda sobranceira, que hora he de Sebastião Galego da Praia, foi morto atiros, hum homem, que vinha do Sitio de Nazareth conduzido debaixo de prizão, pelo soldados voluntários que se achavão no dito Sitio fazendo o Serviço de Policia no tempo das Festas, e por elles foi mandado conduzir o Cadaver, e recolhido na loge da casa da Camara denominada = o Curral do Concelho = de donde no dia doze o Alcaide o fes conduzir para a Capela da Snr.ª dos Anjos, prevenindome p.ª o hir encomendar, e achandome neste acto tomou a comparecer o d.º Alcaide com ordem do Doutor Corregedor, da Comarca de Alcobaça, q[ue] então se achava no Sitio, p.ª não ser seputado sem q[ue] se procedesse ao exame de Corpo de delito, o qual só se fes hoje treze do d.º e logo depois delle foi sepultado o d.º cadaver no Cemitério da referida Capela: Declaro, que este facto só me constou depois do morto se achar nesta Villa, porqu[e] d’antes nenhum avizo, ou noticia tive p.ª lhe poder acudir com os socorros Espirituais do d.º morto q[ue] segundo os esclarecimentos dados por duas mulheres, que na mesma ocasião vierão tao bem prezas do Sitio p.ª a cadea desta Villa, onde ainda existem/ chamavasse Inocencio Henriques Bettencourt, morador na Rua de S. Roque em Lisboa, que era casado, e tinha a Mulher em Lisboa, mas que não lhe sabião o nome, q[ue] era oficial d’Armeiro, ou de manufactor d’armas: e nada mais declararão: de que tudo fis este assento, que assignei[…]»*

*http://digitarq.adlra.arquivos.pt/ – Livro de óbitos da Freguesia da Pederneira, 1832-1861, img.0045

Óbito do Governador do Forte de São Miguel Arcanjo*

O saudoso Dr. Saavedra Machado deixou-nos um vasto espólio bibliográfico, além do seu papel cultural, histórico e patrimonial em prol da Nazaré, nomeadamente na direcção do Museu Dr. Joaquim Manso.
Num dos trabalhos que nos deixou dedica o seu estudo ao Forte de São Miguel Arcanjo – “O Forte de São Miguel Arcanjo – Monumento Histórico-Militar do séc. XVII” – Monumento de grande relevância para a comunidade nazarena, em particular, e para o sistema defensivo do litoral ocidental, em geral.
Nesse trabalho, o Dr. Saavedra Machado dedica, entre outros assuntos, toda a atenção aos Governadores do mesmo Forte, sendo que um deles foi Luís Inácio Pereira – filho de Manuel Gomes Pereira – que foi governador do forte, por nomeação régia, a partir de 15 de Julho de 1706.**
É, precisamente, sobre Luís Inácio Pereira que se apresenta o seu registo de óbito:
«Aos desouto dias do Mes de Julho de mil Sete Centos, e quarenta annos faleceo Luis Ignácio P.ª Gov.[ernador] da Fortaleza de São Miguel da Nazareth, viuvo. e casado que foi com Dona Ignes Thiodora Eugenia de Soutto, e recebeo os Sacram[entos] e foi sepultado no adro por de tras , e junto à Sacriptia da Misericórdia de que fis este asento […]»***
Podemos, portanto, inferir que Luis Ignácio Pereira foi Governador do Forte de São Miguel Arcanjo entre 1706 e 1740, ano do seu falecimento, encontrando-se, ainda, sepultado na Igreja da Misericórdia.

* Este texto não dispensa a consulta da obra citada.
**Cf. Op.Cit. p.62.
***http://digitarq.adlra.arquivos.pt/details?id=1110090, f.15 (acedido em 19/8/2017).