A primeira pessoa natural da Praia (actual Praia da Nazaré)

Apenas como esclarecimento para os leitores que não estejam familiarizados com o limite administrativo do topónimo Nazaré, deve informar-se que o mesmo inclui os núcleos urbanos da Pederneira, Sítio, Praia e Fanhais.
Estes aglomerados urbanos formam a Freguesia da Nazaré que, juntamente com as freguesias de Valado dos Frades e Famalicão, constituem o Concelho da Nazaré.
O topónimo mais antigo é Pederneira, depois o Sítio e o mais recente é a Praia, sendo por isso que se diz: ir à Praia, estou na Praia, venho da Praia…
Este assunto, sendo pacífico do ponto de vista da questão toponímica, encerra em si alguma complexidade, posto que em alguns estudos dados à estampa se refere que a Praia terá sido fundada pelos Ilhavos em meados de setecentos ou que as primeira cabanas terão sido ali edificadas em finais do séc. XVII.
Seja como for, o assunto é bem mais complexo do que aparenta não sendo este o “espaço” para uma qualquer dissertação sobre o mesmo.
Nesse sentido, é de relevante interesse a menção à primeira pessoa que terá nascido na Praia feita por João António Godinho Granada na sua obra “Nazareth: Pederneira, Sítio, Praia – para a história da terra e da gente”*
Refere o Autor que no «fim do século, a Praia já tem famílias inteiras que ali se estabelecem definitivamente e em 1793 nasce a primeira criança natural do lugar; é uma menina, chama-se Maria e é filha de João Carreira e de Maria do Carmo.»**
Posto assim, haveria que verificar se, na realidade, o primeiro registo de batismo de alguém da Praia seria a pessoa que o Dr. João Granada indicou nesse seu trabalho de grande relevância para o estudo das famílias da Nazaré.
Mais uma vez os registos parecem confirmar essa evidência, verificando-se a relação entre a data avançada e o nome da criança, assim como os pais, algo que, naturalmente, o Autor verificou durante a sua importante investigação.
De imediato coloca-se uma questão. Conseguimos ligar esta criança a uma família ainda existente na Nazaré?
Procurámos no ano de 1793 e verifica-se o que se segue:
Nota à parte:
“Praya”
“Maria”
«Aos quatorze de Abril de mil sete centos e noventa e tres nesta Par[oquial] Igr.ª e Colleg[egiada] de S. Maria das Areas desta V.ª da Pedernrª baptizei solemnem[te] e pos os Santos oleos […] a Maria f.ª leg[itima] de João Carreira  e Maria do Carmo n[aturais] elle da Vestiaria e ella daqui, neta paterna de João e Paula Maria, n[atuarais] elle da Batalha e ella da Vestiaria e p.[ela] materna de Pedro Pereira e Vicencia do Espirito S.[anto] n[aturais] daqui. Naceo aos oito dias do sobre[dito].[…]*
Esta Maria, que viria a ser Maria do Carmo Carreira, casou com Manoel de Almeida Figueira Morte. Tiveram, entre outros filhos, Joaquim Figueira Facada que viria a casar com Anna Sant’Ana de Jesus Cavaleira.
José Figueira Facada, que casou com Ana Barqueira Batalha, teve descendência que viria até aos nossos dias. ****
Encontra-se, desta forma, identificada a descendência da primeira pessoa, natural da Praia [da Nazaré], pela interpretação do Dr. João Granada e confirmada numa pesquisa genealógia existente e credível.
*Edição de 1996.
**Id p.35
*** ADLRA – Pederneira, Livro de Batismos, 1793
**** O resto da descendência indica o ramo dos Figueira Batalha cujos descendentes directos, por motivos de privacidade, não colocamos neste post.

Um enjeitado entregue ao pai!

Recebemos esta notícia do nosso amigo  José Lopes que muito agradecemos, sinalizando que este espaço é de todos os que queiram enviar informações de interesse para a história, não só do concelho da Nazaré mas, também, da região Oeste Litoral.
Passamos a apresentar os registos. 
Do Livro de Registos de Batismos da freguesia de Alfeizerão respeitante aos anos 1697 a 1737, conservado no Arquivo Distrital de Leria (cota IV/24/B/31) transcrevemos, atualizando a pontuação e a ortografia, dois assentos complementares sobre uma criança exposta à porta do pároco de Famalicão, o padre Francisco do Couto.
Aos vinte e nove dias do mês de Julho de mil e setecentos e trinta e um anos, eu, o Padre António do Couto Maio, Cura nesta paroquial igreja de S. João Batista desta vila de Alfeizerão, batizei solenemente e sub conditione e pus os Santos Óleos a António, enjeitado, o qual foi entregue ao Juiz desta vila, o Alferes Manuel Antunes de Vale de Maceira, pelo Padre Francisco do Couto do lugar de Famalicão, a cuja porta o deixaram na madrugada do mesmo dia, como consta de um escrito que o dito Padre escreveu ao dito Juiz, e como não trazia cédula de que tinha sido batizado, o fiz na forma referida; foram padrinhos António Dias Landes desta vila e Inácia Ramos, mulher de Pedro Dias desta vila. E para que conste fiz este assento. Era ut supra.
O Cura António do Couto Maio
[ADLRA, IV/24/B/31, fl. 160]
 Aos cinco dias do mês de Agosto da Era acima, indo oficiais da Câmara desta dita vila ao Sítio de Nossa Senhora da Nazaré, como é costume, com a procissão desta freguesia, levaram o enjeitado acima e o entregaram ao pai, que é o Capitão António de Sousa Tavares da vila da Pederneira, o qual o aceitou. E para que conste, fiz esta declaração. Era ut supra.
O Cura António do Couto Maio

[ADLRA, IV/24/B/31, fl. 160]