As surpresas que a genealogia nos reserva

É um facto indesmentível que a pesquisa genealógica gera momentos de grande alegria, nem que seja pela contínua descoberta dos nomes, dos locais e dos títulos, quando existem.
Como não sou excepção à regra, também tenho encontrado alguns factos que aguçam a minha curiosidade em saber como certos acontecimentos se deram, as motivações que lhes deram origem, os caminhos que percorreram, e como os percorreram, as profissões que desempenharam, as razões que terão existido para, neste caso, levar a cabo uma viagem de largos quilómetros para visitar “um amigo”, conforme se lê num dos registos que abaixo de apresentam.
A genealogia, ou o estudo sério da mesma, é isso mesmo. A possibilidade de irmos além, de pesquisar na bibliografia disponível os enquadramentos sociais, económicos, políticos e, mesmo, eclesiásticos complementando, dessa forma, a informação obtida dos paroquiais.
Tudo isto terá um relativo interesse, dependendo do que se pretende com a pesquisa dos antepassados.
Naturalmente que uns acharão que é uma perfeita estupidez toda esta prosa causada pela descoberta de um registo de menor importância. Outros acharão que não. Que é a partir destas indicações contempladas, e sustentadas, na narrativa do representante da igreja que poderemos traçar percursos vivenciais, interligando os séculos, percebendo a nossa própria existência.
Não é, por isso, de estranhar que tenha ficado surpreendido com a história do meu tio-bisavô, que durante os nove meses que viveu deixa um testemunho singular. Um testemunho de tudo o que os pais podem e devem fazer pelos filhos quando os sentem menos bem, ainda que esta situação se passe num tempo diferente do nosso e que o assunto seja de larga discussão.
Este poderá ser apenas mais um exemplo, entre tantos outros que possam ter acontecido por esse Portugal fora, mas é meu, é a história breve do meu tio-bisavô e da coragem, do apego, daquele sentimento inexplicável que existe entre pais e filhos.
 
Por tudo isto, e por muito mais que haveria que dissertar sobre estas questões, apresento-vos o Pedro que nasceu na freguesia da Pederneira, foi batizado na freguesia de Santo Eustáquio d’Alpiarça, concelho de Almeirim e, sete meses depois, viria a falecer na Praia (Nazaré).
Releva-se também a preocupação dos pais em batizar o seu filho de quatro meses, a viagem feita, com certeza, em condições emocionais e físicas bastante complicadas e, no fim, a morte, ou a incapacidade de fugir ao destino, às condições de vida desse malfadado século XIX em que o índice de mortalidade infantil é elevadíssimo, fruto de vários factores que por ora não se abordam.
Apresenta-se, então, a pequena história de vida do pequeno Pedro:
 
«Aos treze dias do mez de Fevereiro, do anno de mil oito centos oitenta e dous, nesta Igreja parochial de Santo Eustaquio d’Alpiarça, Concêlho d’Almeirim, do Patriarchado de Lisbôa, baptizei solemnemente e pus os Santos Oleos, (sub condicione) por me dizerem que já tinha sido baptizado por uma parteira que não conheço, e ignoro se sabe a forma do baptismo) [sic] a um individuo do sexo mascolino [sic], a quem dei o nome de Pedro, que nasceu ás quatro horas da manhã do dia nove de Novembro do ano proximo preterito, na Praia de Nazaret[h], freguesia de Nossa Senhora das Areias Concêlho d’Alcobaça, Dioceze de Leiria, filho legitimo primeiro do nome de Joaquim Vasco, almocreve, natural da Praia de Nazareth, e Henriqueta d’Oliveira governo domestico, natural da Alhada de Baixo, freguesia da Alhada de Cima, Dioceze de Coimbra, recebidos na sobre dita freguesia de Nossa Senhora das Areais da Villa da Pederneira, e parochianos moradores no logar da Praia de Nazaret[h], os quaes ambos, vindo a esta Povoação visitar um seu amigo, e rogado para seu compadre, resolveram baptiza-lo aqui, com receio d’elle lhe morrer na jornada porque o julgaram em perigo de vida. Neto paterno d’Antonio Vasco e Maria da Conceição, e materno de Dionizio Nossa, e de Luiza d’Oliveira. Padrinhos Pedro dos Santos [8] Simões, cazado, Zelador da Camara, e Joaquina da Conceição Lima, Viuva, governo domestico, naturais deste logar os quaes sei serem os próprios. E para constar, lavrei em duplicado este assento que, depois de ser lido e conferido perante os padrinhos, com elle só assignei, por ella não sabia. Era ut supra
[Assinam]
O Padrinho
O Prior José Rodrigues Ribr.º »*
 
*ADSTR – Livro de batismos da Freguesia de Santo Eustáquio – Alpiarça, 1882, f. 8 e 8v.
 
Na verdade, o avô de Pedro, de nome António Vasco, era natural e batizado na Freguesia de São Tiago, Torres Novas, pelo que essa proximidade com pessoas daquelas geografias não se deve estranhar. A mãe, como refere parcialmente o Prior, era de natural e batizada das Alhadas de Baixo, freguesia de Santo Isidro das Alhadas, concelho da Figueira da Foz e não freguesia de Alhadas de Cima, como nos parece pelos elementos já recolhidos sobre Henriqueta d’Oliveira e os seus ascendentes.
Passados cerca de seis meses depois Pedro acaba por falecer.
 
«Aos vinte e quatro dias do mez de agosto do anno de mil oitocentos oitenta e dois no logar da Praia desta freguesia de Santa Maria das Arêas da Pederneira, concelho de Alcobaça, Patriarchado de Lisboa, ás duas horas da manhã faleceu um individuo do sexo masculino por nome Pedro, d’edade de nove mezes, natural da mesma Praia desta freguesia, baptizado na de Santo Estevam [Eustáquio] d’Alpiarça, concelho d’Almeirim, filho legitimo de Joaquim Vasco, almocreve, e de Henriqueta d’Oliveira, desta da Pederneira, moradores na referida Praia. Foi sepultado no Cemitério publico desta Parochia. E para constar lavrei em duplicado este assento que assigno. Era ut supra.
O Parocho Jose Pereira Garcia.»**
 

**ADLRA – Livro de batismos da Freguesia de Nossa Senhora das Areias, Pederneira – Alpiarça, 1882, f. 45.


Por fim, releve-se a distância entre a Nazaré e Alpiarça por estradas nacionais (não autoestradas e/ou itinerários complementares) que varia entre os 70 e os 90 kms. Para um percurso pedonal o tempo de caminhada varia entre as 15 horas e as 19 horas !!!

Fazer isto em finais do século XIX com um bebé, com certeza, doente, deveria ser muito complicado mas o pequeno Pedro conseguiu, sabe-se lá como.

Nota: Os nomes aqui apresentados fazem parte dos antepassados do autor deste blog.

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