A igreja de São Gião e o povoamento na área da lagoa da Pederneira: do século V ao século XII – 1ª Parte

A igreja de São Gião e o povoamento na área da lagoa da Pederneira: do século V ao século XII [1]

                                              1ª Parte

                                                                                Carlos Fidalgo[2]

 

Sinopse

Parece ser unânime que um grande vazio continua a pairar sobre o conhecimento da Região de Leiria entre o fim do domínio Romano e o período da Reconquista Cristã. Com efeito, a incipiência e atraso da investigação arqueológica do período medieval no país e concretamente na Estremadura portuguesa não permitiram contar até agora com o contributo dos dados arqueológicos para a discussão de um tema onde se revelam essenciais para o entendimento e esclarecimento do processo histórico.[3]

É este, ainda hoje, o problema com que nos deparamos ao tentar abordar o povoamento da área da lagoa da Pederneira entre os séculos V e XII. [4]

Apesar dos condicionamentos apontados por Bernardes que se estendem à área da lagoa da Pederneira, a existência da igreja de São Gião da Nazaré e a Torre de Dom Framondo[5], ambas localizadas na Freguesia de Famalicão, Concelho da Nazaré, podem fornecer-nos alguns elementos sobre uma eventual ocupação humana durante o período temporal agora em estudo.

Por outro lado a suspeita da existência de locais, que ainda não se encontram estudados mas que foram alvo de uma primeira observação por cientistas de reconhecido mérito, pode também contribuir para a solidificação da ideia de que esta zona da Estremadura poderá ter sofrido um processo “contínuo” de ocupação, pelo menos desde a ocupação romana, que deverá ter ocorrido desde o século II a.C. até à actualidade.[6]

Como exemplo desta ocupação, saliente-se a referência a uma eventual necrópole visigótica na Serra da Pescaria que, segundo testemunho oral, terá sido descoberta pelo proprietário do terreno e analisada pelo Dr. Saavedra Machado e pelo Doutor. O. da Veiga Ferreira. [7]

Na abordagem a este período a Igreja de São Gião torna-se bastante relevante, assim como também o foi na nossa abordagem à ocupação romana.[8]

Neste sentido, considera-se que, embora não cabendo no âmbito do nosso estudo uma análise profunda aos aspectos artísticos encontrados em São Gião, é através deles e da comparação com outros locais que se poderá ter uma percepção da ocupação ou ocupações humanas durante o período agora em estudo (séc. V a XII). Justifica-se, assim, a referência a alguns pormenores desta igreja que mereceram a nossa atenção, quer através da investigação bibliográfica quer ao longo das muitas visitas efectuadas ao local em causa.

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Assumindo que as marcas deixadas pelo Homem são sinais evidentes da sua passagem, mais ou menos prolongada, pelos vários locais onde se estabeleceu, São Gião não foge a essa regra. É nesse âmbito que se pretende abordar as marcas existentes em São Gião na esperança de poder contribuir com novos dados para o conhecimento deste local no âmbito do povoamento da área da lagoa onde esta igreja se encontra implantada.

A informação consultada sobre a presença Sueva, (409 – 584 d.C.), em particular o contributo de Almeida Fernandes, [9] não faz referência à ocupação sueva e visigótica[10] nesta zona.

Carlos Fabião refere que: «No restante território do reino suevo, só no Castro de Fiães da Feira, foi identificada uma ocupação seguramente desta época. Outras construções habitualmente datadas dos séculos VI e VII, como a suposta basílica de S. Pedro de Balsemão, Lamego ou a Igreja monástica de S. Gião da Nazaré poderão ser construções mais recentes.» FABIÃO (1994:24).

Borges Garcia e Fernando de Almeida contribuem também para a problemática da eventual presença sueva em São Gião, quando noticiam o achado de um «túmulo com um só esqueleto, sem espólio. É muito provável que o túmulo tenha sido violado, mas como o esqueleto tem aspecto de não ter sido mexido, aventamos a hipótese de se tratar de inumação suévica, pois que aos suevos, católicos, lhes era proibido o enterramento com adornos ou armas.» GARCIA e ALMEIDA (1966:24).

Neste sentido, a possibilidade do túmulo descoberto por Borges Garcia em S. Gião poder conter elementos que o possam ligar à época em que os suevos se tinham convertido ao Cristianismo poderá justificar uma ocupação humana durante a segunda metade do século V, naquele local. [11]

Apesar de se considerar uma eventual presença Sueva nesta zona do território português, a informação disponível não nos permite sustentar qualquer tese sobre este facto, deixando para futuros trabalhos o esclarecimento desta questão.[12]

Sobre a eventual ocupação visigótica neste local, seria Borges Garcia quem viria a contribuir, em primeira instância, para o conhecimento de uma igreja (São Gião) despojada de grande parte da sua decoração artística, mas contendo ainda alguns elementos arquitectónicos, artísticos e arqueológicos que o levaram a classificá-la, desde logo, como sendo Visigótica.

«No meio da Quinta de S. Gião surge um casarão que em parte nos parece construção do séc. XVII ou mais tardia. Esta parte do edifício é contudo a mais recente e está adoçada a um corpo prismático, vestuto, meio arruinado, coberto por um telhado de duas águas, com armação de madeira. É a nave central duma igreja Visigótica.»[13] GARCIA (1978)

Sobre a importância desta Igreja no âmbito da presença visigótica em Portugal, Borges Garcia refere que se conheciam «já muitas pedras dispersas por todo o território português, sobretudo no Sul (Alentejo e Algarve), mas edifícios de pé, com a evidência de visigóticos, muito poucos ainda hoje se conhecem. Daí a redobrada importância e significado do pequeno templo de S. Gião.» GARCIA e ALMEIDA (1966:340).

As várias comunicações do Dr. Borges Garcia, juntamente com Fernando de Almeida,dariam início a um longo processo de teorização, principalmente sobre a datação da igreja de São Gião.

Entre os autores dessas teorias, destaca-se Theodor Hauschild que classifica a igreja de São Gião como sendo «uma igreja pequena que provavelmente deve ser interpretada como igreja conventual e que, de acordo com o estilo do capitel [14] conservado no interior, em frente da abside rectangular, pertence ao século VII.» HAUSCHILD (1986:149)

Saavedra Machado refere que «esta igreja monástica é um raro exemplar da arquitectura visigótica peninsular do séc. VII (656-665 d.C.). A sua construção arquitectónica tem a particularidade de dar indicações quanto à liturgia da época. (…) Se nalgumas igrejas da Península Ibérica dos sécs. VII a X se podem observar as “cancelas” ou “anteparos”, quase todos baixos, necessários à separação entre o clero e o povo, na igreja de S. Gião o “anteparo” ou “Iconóstase” é impar na arquitectura paleocristã, pois a parede que separa a nave do cruzeiro ergue-se até à armação do telhado; é bastante reduzida a comunicação entre a nave e o cruzeiro.» MACHADO (1989:10)

Borges Garcia, em 1964, aquando do início dos trabalhos em São Gião, ao manifestar-se sobre o aparecimento de dois novos vãos de arco que definiram uma Iconóstase, releva que «a Iconóstase é de origem bizantina e aparece com frequência nas igrejas Paleocristãs do Egipto Copta. Não conhecemos, porém, nenhuma igreja paleocristã ou visigótica da Península que apresente Iconóstase[15].» GARCIA e ALMEIDA (1966:341).

Segundo D. Fernando de Almeida: «A Arquitectura copta introduziu a cúpula nas suas basílicas. Estes templos tinham três absides, cada uma coberta com cúpula: nelas se abriam pequenas janelas para iluminação do templo. Nas absides eram colocados altares.

Por vezes um “iconostasis” separava o Santuário do corpo da igreja, que por não ter iluminação própria ficava assim mais escuro e propício à meditação.» ALMEIDA (1962:57).

A leitura de vária bibliografia e a análise de vários mapas, conjecturais, sobre as diversas fases de ocupação da Península não indicam que os Bizantinos tenham, alguma vez, chegado à Estremadura.

Sobre este assunto, D. Fernando de Almeida refere que «não se conhece com exactidão até onde chegaram os Imperiais na sua ânsia de conquista; (…) tem-se como certo, ou quase certo, que a fronteira mais setentrional teria ido de Dianium (a actual Denia) perto do Promontório do mesmo nome, nos contrafortes da Serra Morena, até um pouco ao Norte de Córdova de onde seguiria o Guadalquivir para depois inflectir para Ocidente e atingir o Atlântico.

É duvidosa esta última parte do trajecto, pois se alguns autores afirmam terem os Imperiais chegado aos muros de Évora, parece provado não terem ido muito além da fronteira Norte do Algarve.» ALMEIDA (1962:32).

Parece-nos de aceitar a teoria de D. Fernando de Almeida quando afirma que, no século VII, a arte visigótica foi influenciada primeiramente pela instabilidade em que então se vivia, a insegurança, uma religião (o Cristianismo) nova a crescer minuto a minuto, a espalhar-se das cidades para os campos, a riqueza pública a diminuir diariamente, tudo isto produziu um mundo novo que não podia deixar de ter influído poderosamente na Arte do seu tempo: a sua base é de tradição hispano – romana, mas sofreu influências inegáveis da Síria, de Bizâncio, do Norte de África, da Sicília e de Ravena.» ALMEIDA (1962:72).

Na opinião de D. Fernando de Almeida a arte visigótica terá tido um «carácter político e não étnico, pois o período em que essa forma de Arte se manifestou corresponde, sensivelmente, ao da existência do reino visigodo e não à produção artística do povo visigodo.» ALMEIDA (1962:07).

Neste contexto, o legado dos visigodos é mais um produto da sua ocupação espacial do que propriamente da sua capacidade criativa.

Certamente que terão sido as “influências” que o D. Fernando de Almeida explica que poderão ter contribuído para a existência da Iconóstase na igreja de São Gião.

Essas influências ainda se tornam mais evidentes e mais plurais se atentarmos na descrição que D. Fernando de Almeida faz da tipologia funcional das igrejas Bizantinas e de algumas semelhanças existentes no interior da igreja de São Gião. «Na igreja de tipo bizantino, o santuário é vedado aos olhos dos fieis por uma como que parede transversal, o “Iconóstase”; a sua função é escondê-lo da vista de quem estiver em qualquer parte dos outros três braços da igreja.

É à frente do “Iconóstase” que se passam algumas cerimónias, e então o sacerdote entra em contacto íntimo com os fiéis; por isso os braços laterais da igreja são do mesmo comprimento e largura dos centrais…» ALMEIDA (1962:64).

Da descrição de D. Fernando de Almeida deve-se sublinhar que, em São Gião, os braços do transepto não são da mesma dimensão da nave central. Esta situação, entre outras, poderá ter a ver com o facto de não se considerar esta igreja como sendo de construção tipicamente Bizantina, mas contendo alguns elementos dessa corrente artística e arquitectónica, assim como de outras correntes artísticas que, durante o período das invasões Peninsulares até ao fim da Reconquista Cristã, se fizeram sentir, em particular, nos edifícios de culto.

São Gião apresenta-se como um valioso testemunho de todas estas influências culturais, resultantes das várias ocupações humanas e da aculturação dos que por cá iam ficando, uma vez que, como refere João Pedro Bernardes, «consideramos difícil aceitar que não tivessem subsistido no território algumas populações descendentes de romanos e de populações germânicas e islâmicas que entretanto pisaram estas terras, apesar das constantes algaras muçulmanas e fossados cristãos.» BERNARDES (2005:565).

Para a continuidade de ocupação do local de São Gião, terá sido importante o enquadramento rural e a capacidade de retirar desse meio os produtos para a subsistência dos que por lá se fixaram.

Neste sentido, João Pedro Bernardes aborda a questão da ruralidade de São Gião, relacionando-a com a continuidade do povoamento da região de Leiria após o domínio romano quando refere que: «Sem dúvida que essa continuidade de ocupação de algumas villae romanas está melhor testemunhada em S. Gião da Nazaré, onde a um conjunto significativo de ruínas romanas se sobrepôs um templo cristão. Os recursos dos antigos assentamentos romanos são, de facto, um forte atractivo, quer pela sua localização em vertentes e vales aprazíveis e de bom potencial agrícola.» BERNARDES (2005:567).

Posto isto, pensamos que o conhecimento actual da igreja de São Gião, no âmbito das questões do povoamento, aparece-nos mais como consequência dos estudos efectuados no âmbito da história da arte do que propriamente de testemunhos coevos sobre a sua ocupação.[16]

É de facto no seu interior que se revelam as tendências que, desde o século V até ao seu abandono, no século XVIII, contribuíram para o aparecimento no território de «novas formas construtivas que reflectem as múltiplas influências culturais que entretanto por aqui se iam cruzando: tardo – romanas, suevas, visigóticas, árabes, bizantina.

O pouco que resta desse período de invasões, guerras e instabilidade é formado, principalmente, por construções religiosas. São pequenas igrejas e mausoléus. Estes são em planta de cruz grega, reproduzindo o de Gallia Placídia, em Ravena. Em Portugal, destaca-se o mausoléu de S. Frutuoso de Montélios, em Braga, cuja construção se iniciou no século VII, para albergar os restos mortais do bispo com o mesmo nome, posteriormente santificado.

Quanto às igrejas, conhece-se hoje a de São Torcato, em Guimarães, a Igreja de São Pedro de Balsemão, em Lamego; a Igreja de São Pedro de Lourosa da Serra, em Oliveira do Hospital; a Igreja de São Gião, na Nazaré, a Igreja de Vera Cruz de Marmelar, na Vidigueira, e a Catedral da Egitânia, em Idanha – a – Velha. (…) Encontram-se todas em muito mau estado de conservação, mas apresentam características comuns; planta basilical de cruz latina, com três naves; coberturas de madeira; capela – mor rectangular de formas largas e curtas; vãos em arcos de ferradura; muros em silharia; rusticidade técnica; e pobreza decorativa, onde, apesar de tudo, se salientam alguns frescos, hoje desaparecidos. (…) A arte destes tempos balançou entre diferentes pólos dinamizadores: a influência do renascimento carolíngio, a rusticidade dos Visigodos, o colorido dos bizantinos e o ecletismo da arte muçulmana do Emirado de Córdova  fazendo com que estes monumentos, símbolos do pensamento e da actuação das populações anteriores ao Ano Mil, espelhem enigmaticamente todas essas vertentes.» PINTO et. al. (2006:38 a 39).

Oliveira Marques, entre outros, contribui, também, para a tentativa de explicação desta instabilidade quando refere que «a partir do séc. VIII, Árabes mas, sobretudo, Berberes do Norte de África, foram-se, a pouco e pouco, instalando como colonos. Tanto nas cidades como no campo, muçulmanos sedentarizados de há muito civilizados, ao lado de tribos de costumes primitivos, vieram radicar-se na Península. Deixaram profundos vestígios na toponímia e na onomástica, muitos deles ainda hoje perceptíveis, conquanto pouco estudados. Em certos casos, torna-se mesmo possível dizer que colonizaram de novo, concorrendo com os Romanos no desbravamento dos futuros Estados Ibéricos.

Todo o sul e centro de Portugal de hoje, até à região do Mondego ou porventura do Douro, com ocasionais estabelecimentos para norte deste, conheceu a presença do colono muçulmano. Esta presença, todavia, nunca se revelou homogénea. Clima, condições do solo, povoamento pré-existente, diferenciações étnicas ou tribais, questões de conjuntura e ainda outros factores fizeram concentrar os novos povoadores em certas áreas e exclui-los de outras.

Por isso, um mapa da fixação islâmica revelará provavelmente “manchas” de colonos sobre um fundo romanizado mais coerente. Contudo, o contraste Norte – Sul foi, uma vez mais, acentuado.» MARQUES (1985:20 a 21).

A zona objecto do nosso estudo, nomeadamente a Estremadura Litoral, sofreu um processo de grande instabilidade que viria a ter consequências na estabilização das populações e consecutivamente na edificação de estruturas que atestassem, inequivocamente, a presença dos povos visigóticos e muçulmanos.

Pedro Barbosa contribui para a discussão deste período conturbado e pouco produtivo em termos artísticos, arquitectónicos e arqueológicos quando refere que «a Estremadura litoral, entre o termo de Sintra e o de Coimbra, era pouco povoada, e não representava um peso importante no sistema económico muçulmano. Mas, do ponto de vista estratégico, era importante, pois barrava aos Cristãos (instalados a Norte de Coimbra) uma das principais vias de acesso ao sul e à rica cidade de Lisboa.» BARBOSA (1992:55)

O Mondego, a Norte, e o Tejo a Sul, funcionavam como que barreiras, tendo a Estremadura central o papel de zona intermédia entre os Cristão estabilizados a Norte e os muçulmanos, a sul do Tejo.

Apesar da conquista de Lisboa em 1147, a situação não ficou resolvida, em particular, nesta zona da Estremadura, como iremos tentar provar.[17] Muito ainda haveria de acontecer até essa estabilização se tornar um facto consumado e o povoamento desta área se proceder de uma forma normalizada e progressiva.

A ocupação muçulmana na Península Ibérica, em geral, e na Estremadura litoral, em particular, abrange um período de tempo bastante significativo, cerca de quatrocentos anos, se considerar a conquista de Lisboa, em 1147.

Contudo a notícia de incursões muçulmanas nos anos de 1184 e 1195 nesta zona da Estremadura leva-nos a considerar que o processo de estabilização do povoamento da área da lagoa da Pederneira apenas terá ocorrido já no decurso do século XIII.

É neste sentido que se releva a notícia de que «os monges [Cistercienses] viram-se a braços com grandes dificuldades. O território doado pelo rei estava exposto às incursões dos Muçulmanos. Depois da chacina de 1195,[18] houve que recomeçar tudo de novo.» COCHERIL (1989:27)

Embora Cocheril, como vimos, se refira apenas ao ano de 1195, temos conhecimento que, onze anos antes, 1184, terá havido uma outra incursão muçulmana na tentativa de recuperar o território que, segundo a nossa opinião, se encontrava como que num estado de terra de ninguém. Não seria apenas pela doação que Dom Afonso Henriques fez à Ordem dos Monges de Cister que os Muçulmanos, sabendo do fraco ou inexistente poder defensivo destes, deixariam de tentar recuperar essa zona de importância estratégica que era a lagoa da Pederneira e toda a sua área circundante, onde se incluía o mosteiro em construção.

Assim, se considerarmos uma informação mais completa sobre essas incursões muçulmanas ficamos a saber que em «1184 e 1195 as obras até aí empreendidas e a comunidade do mosteiro foram duramente afectadas. Com a vinda de uma nova vaga de religiosos de Claraval, a construção do mosteiro foi retomada e em 1222 o edifico já era habitável» SOUSA et. al. (2006:102)

Tal deverá ter sido a devastação que foi necessária a vinda monges recrutados de outros locais, pertencentes à Ordem de Cister, para terminarem, desta vez sem mais incursões muçulmanas, a obra do Mosteiro de Alcobaça.

Não querendo, nem devendo, fugir da questão de São Gião e o povoamento da zona agora em estudo, não deveremos passar ao lado de outro eventual facto que nos merece toda a atenção, uma vez que nos suscita algumas dúvidas e, com certeza, merecerá um estudo mais aprofundado.

Laranjo Coelho, baseado nos escritos do monges de Cister[19], relata que: «entre as velhas povoações da nossa costa a Pederneira é uma das que se gaba de ter mais remota antiguidade, pois afirmam alguns antiquários que já em 1195 ela tinha igreja paroquial e já em 1224 funcionava com beneficiados, todos pertencentes, até 1834, ao padroado do rico Mosteiro de Alcobaça pela sua primacial doação régia. Um dos mais antigos documentos que encontramos relativos a esta vila é uma doação feita na era de 1259, ano de Cristo de 1221, pela qual um certo padre Gonçalo, prior de S. Pedro da Pederneira doa ao mosteiro de Alcobaça, por sua morte, uma herdade que se compunha de vinha, casas, pomares e outras terras.» COELHO (1924:09)

Frei Manoel dos Santos, por seu turno, refere que «a primeira Capela que os monges erigiram foi na villa da Pederneira.» SANTOS (1710:437)

Posto isto e, ainda que hipoteticamente, em 1195, tenha ocorrido a referida incursão muçulmana, os registos que possuímos nada referem sobre São Gião nem sobre a suposta igreja de São Pedro da Pederneira[20], apenas se referindo aos monges de Alcobaça e às obras do mosteiro.

Talvez possamos justificar esta lacuna na informação, no carácter tendencioso que, por vezes, os escritores cistercienses revelam quando “permitem” a omissão de certos acontecimentos contemporâneos, como o que se relata sobre as duas igrejas referidas, em favor da vasta informação sobre Alcobaça e a sua abadia.

Neste âmbito, torna-se legítimo questionar como é que em 1195, perante um processo de invasão muçulmana, e com a devastação a que já fizemos referência, os monges de Cister, segundo o relato de Manoel dos Santos, tiveram tempo e disponibilidade para erigirem a capela de São Pedro da Pederneira, num período temporal entre 1190 e 1224, se pelo menos dois factos se colocam: o período conturbado em que esta zona se encontrava e as condicionantes humanas para a construção do próprio mosteiro.

Cocheril sustenta a nossa dúvida quando relata que «os monges e conversos não estavam em número suficiente para construir a imponente igreja de Alcobaça e os edifícios anexos. (…) Durante 70 ou 80 anos, operários e serventes trabalharam com afã no vale solitário. A parte reservada aos monges foi ocupada em 1223, 70 anos após a sua chegada.» COCHERIL (1989:20)

Talvez nos identifiquemos mais com o descrito por Saavedra Machado, quando sustenta que «o velho burgo da Pederneira era a paróquia mais antiga dos Coutos de Alcobaça. (…) Foram os seus moradores que ergueram o primeiro templo: a Igreja de São Pedro, que foi o primeiro orago do burgo primitivo desenvolvido em seu redor, já ao culto em 1221 e provavelmente construída “antes dos primórdios da monarquia”.» MACHADO (1989:12)

De referir ainda a eventual antiguidade do burgo da Pederneira, como lhe chama Saavedra Machado que, segundo o autor, «ao tempo dos reinados de D. Afonso Henriques (1143-1185),

e D. Sancho I (1185 – 1211) e de D. Sancho II (1223 – 1245), já na Pederneira vivia gente abastada.»[21] MACHADO (1989:12)

Se aceitarmos esta opinião, avançada por Saavedra Machado, deveremos levar em linha de conta o que ficou descrito sobre o local do Rossio da Pederneira na época romana, o mesmo se aplicando a São Gião que, a equacionar, permitem defender a continuidade de comunidades que terão permanecido naqueles locais muito antes da chegada dos monges de Cister.

Parece-nos, após esta breve derivação na abordagem a São Gião, no nosso entender necessária, que se sustenta mais facilmente aquilo que Bernardes refere sobre a permanência, ao longo dos tempos, de populações que por aqui foram ficando não se considerando que após a saída dos romanos este território tenha ficado despovoado na sua plenitude.

Mais do que os relatos não coevos sobre a questão do povoamento na área da lagoa da Pederneira em geral e do local de São Gião em particular, contribuem aqueles que, sendo escritos à época, nos fornecem indicações mais precisas sobre alguns acontecimentos ocorridos nesta zona.

Se até aqui as questões sobre a datação da edificação da igreja de São Gião têm sido baseadas em analogias entre as diversas correntes arquitectónicas e artísticas, baseadas na observação in situ e na muita bibliografia publicada para o esclarecimento do povoamento desta zona, relevamos que a falta de documentação coeva sobre essas épocas mais remotas contribui para a continuidade desta discussão.[22]

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BIBLIOGRAFIA

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BARBOSA, Pedro Gomes – Povoamento e Estrutura Agrícola na Estremadura central. Lisboa: Instituto Nacional de Investigação Cientifica, 1992.

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COELHO, Laranjo – A Pederneira. Apontamentos para a História dos seus mareantes, pescadores, calafates e das suas construções navais no séc. XV a XVII. Lisboa: Impressa Nacional de Lisboa, 1924.

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SOUSA, Bernardo Vasconcelos [et. al.] – Ordens Religiosas em Portugal – Das Origens a Trento – Guia Histórico. Lisboa: Livros Horizonte, 2006.

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[1] in; FIDALGO, Carlos. O Povoamento na área da lagoa da Pederneira: da ocupação Romana até ao século XII, Edição Biblioteca da Nazaré, Nazaré, 2013, pp. 136 a 160.

Retirado de: https://repositorioaberto.uab.pt/handle/10400.2/1769

Também publicada em: Cadernos de Estudos Leirienses, Textiverso, 2014, Leiria, pp. 185 a 198.

Este artigo não está em conformidade com as disposições do Novo Acordo Ortográfico.

[2] Mestre em Estudos do Património, Autor, Investigador.

[3] Cf. BERNARDES, João Pedro – “Entre Romanos e Medievos”, p. 563.

[4] Relativamente à zona objecto do nosso estudo releve-se os resultados obtidos nos trabalhos de acompanhamento arqueológico aquando a construção do IC – 9 (Nazaré/Alcobaça) onde, «através da análise do espólio concluiu-se que se tratou de uma ocupação alto-medieval, particularmente centrada entre os séculos VII e IX. Estamos perante um período que abrange a transição entre o reino visigótico e o domínio islâmico na sua fase emiral. Estes séculos são ainda pouco conhecidos no registo arqueológico do país de uma forma geral, e em particular na região em que nos centramos, daí a importância da descoberta e estudo de um sítio como este.» In GONZALEZ, Cristina – Op. cit., pp. 1-35.

[5] Considerámos que pelas dimensões desta estrutura defensiva, cerca de 800m2, a Torre de Dom Framondo deveria considerar-se uma Fortificação que deveria ter uma torre no seu interior, completando assim o conjunto arquitectónico. Cf. FIDALGO, Carlos. O Povoamento na área da lagoa da Pederneira: da ocupação Romana até ao século XII, Edição Biblioteca da Nazaré, Nazaré, 2013, pp. 160 a 197.

[6] Sobre este assunto, Cf. FIDALGO, Carlos. O Povoamento na área da lagoa da Pederneira: da ocupação Romana até ao século XII (…) 2013, pp. 114.

[7] Com efeito, o Prof. João Luís Cardoso informou que se encontra entre o espólio do Doutor O. da Veiga Ferreira que lhe foi confiado pela família o relatório sobre esta intervenção arqueológica, que será brevemente publicado, a título póstumo, sob sua coordenação.

[8] Cf. FIDALGO, Carlos. O Povoamento na área da lagoa da Pederneira: da ocupação Romana até ao século XII, Edição Biblioteca da Nazaré, Nazaré, 2013, pp. 113 a 127.

[9] Sobre este assunto cf. FERNANDES, A. de Almeida – Paróquias Suevas e Dioceses Visigóticas, pp. 67-124; ALMEIDA, D. Fernando de – “Arte Visigótica em Portugal”, pp. 25-32.

[10] Veremos que não colhe grande aceitação a opinião de Almeida Fernandes sobre a presença Visigótica na zona do nosso estudo. Os vestígios arqueológicos, atempadamente referidos neste artigo, relevam exactamente o contrário.

[11] Esta comunicação foi feita pelos autores em 1965, um ano após o início dos trabalhos de escavação arqueológica. Não sabemos se este túmulo terá sido, após estudos mais aprofundados por parte dos mesmos, classificado como o túmulo visigótico encontrado em São Gião conforme vem referenciado na comunicação apresentada ao IV Colóquio Portuense de Arqueologia, 1965, sob o título “Novos Elementos sobre a Igreja Visigótica de São Gião, uma vez que existem apenas duas referências a túmulos encontrados junto à Igreja de São Gião, um da época romana e outro da época visigótica.

[12] Após a análise da obra referenciada, parece-nos de equacionar que a Igreja de São Gião pudesse estar inserida na Paróquia sueva de Lisboa. Contudo o facto de não se mencionar o seu nome na obra consultada é suficiente para que continuem as dúvidas sobre essa eventual ocupação.

[13] Veremos, no decurso deste ponto, que a datação que Borges Garcia propõe poderá ser discutível.

[14] Pensamos apresentar em breve o estudo, já efectuado por nós, dos capitéis existentes em São Gião.

[15] Pensamos apresentar em breve o estudo, já efectuado por nós, sobre a Iconóstase de São Gião.

[16] Os trabalhos de arqueologia a que fizemos referência contribuem para a sustentar a teoria da continuidade de povoamento nesta zona da Estremadura Litoral. Assim, a «comunidade que aqui se estabeleceu [Quinta da Granja 1] atesta o povoamento da região entre o período tardo romano e a reconquista cristã, contrariando uma visão sobre o território “deserto” e estruturalmente desorganizado até à chegada dos monges de Alcobaça no século XII. Podemos imaginar um território com um povoamento de fraca densidade, embora com alguns centros de ocupação em torno da extinta Lagoa da Pederneira.». In GONZALEZ, Cristina – Op. cit., pp. 1-35.

[17] Cf. FIDALGO, Carlos. O Povoamento na área da lagoa da Pederneira: da ocupação Romana até ao século XII, Edição Biblioteca da Nazaré, Nazaré, 2013, pp. 160 a 197.

[18] Achamos que COCHERIL deve ter consultado fontes anteriores que mencionam esse eventual acontecimento, como são exemplo, entre outros: COSTA, António Carvalho da – Corografia portugueza, e descripçam topogafica do famoso reyno de Portugal, p. 126. Após compulsadas as fontes, não nos foi possível encontrar o contraditório, i.e, que não se tinha dado tal acontecimento. Aliás, Jorge Larcher menciona essa hipotética invasão quando refere que «pelo ano de 1195 deviam os nossos inimigos ter invadido a Estremadura, tendo nessa invasão penetrado em Alcobaça, onde praticaram grande mortandade nos frades que se haviam recolhido ao convento temendo as fúrias dos invasores, e desta invasão talvez nascesse o êrro de ter também sofrido, nesta data, nova investida o Castelo de Leiria.» LARCHER, Jorge das Neves. Castelos de Portugal – Distrito de Leiria. Lisboa: Imprensa Casa da Moeda, 1933, p. 50. Como se pode verificar não ficamos com o problema resolvido, pelo que continuamos com muitas reservas quanto a esta invasão.

[19] Entre outros Fr. Fortunato de Boa Ventura; Fr. Manoel de Figueiredo e Fr. Manoel dos Santos.

[20] Sobre a Igreja de São Pedro da Pederneira e os limites do couto de Alcobaça, confira-se o que escrevemos em As Igrejas da Pederneira: do séc. XII ao séc. XVII. Uma análise, Edição Caldas Editora, 2012, pp. 11 a 27.

[21] Temos algumas reservas em caracterizar a sociedade Pederneirense no século XII/XIII. As fontes disponíveis, na nossa opinião, não são suficientes para tirar ilações generalizadas. Notámos essa dificuldade no nosso trabalho FIDALGO, Carlos – Op. cit.

[22] É nesse contexto que se dará continuidade a este artigo.